Londres ‘lumbersexual’

provavelmente a inauguração mais bem sucedida e surpreendente do inverno europeu em Londres. Onipresente nas listas do melhor de 2014 em toda revista de tendências que se preza. A ideia, em um dia de ressaca, foi de Gary e Alan Keery, dois gêmeos de Belfast com barbas bem cuidadas, camisas de lenhador e tatuagens. No começo de dezembro abriram esse local de apenas trinta metros quadrados na Brick Lane, principal artéria do leste de Londres. Não pensem em coquetéis ou na última tendência na cozinha de fusão. O que transformou os irmãos Keery nos empreendedores do momento é um produto bem mais improvável: os cereais.

Lionel Derimais

A Cereal Killer oferece 120 variedades diferentes de cereais e 13 tipos de leite. Meia hora de fila para beber uma xícara de leite de morango com Golden Grahams, por exemplo, a um preço mínimo de 3,10 euros (9,6 reais). Um café-da-manhã de lenhador. A elaborada resposta de Gary no Twitter para um jornalista do Channel 4, que considerou o preço muito alto para um dos bairros mais pobres da capital, se transformou em viral. Cereais favoritos da América profunda, redes sociais, empreendedores barbudos, a imparável gentrificação do leste de Londres. Um café-da-manhã ideal para começar o fim de semana pela Londres mais lumbersexual.

Os rótulos urbanos aparecem ultimamente em um ritmo frenético. No momento em que o macho urbano atual se animou a comprar seu primeiro creme esfoliante, a metrosexualidade já era coisa do passado. Quando o mundo compreendeu, de um modo geral, o que era um hipster, a palavra se transformou em tabu. Os gurus do estilo começam a teorizar sobre o normcore ou o não-estilo. E um belo dia, quando as pessoas já estão a ponto de assimilar e correr para comprar jeans no Carrefour, as revistas de tendências ficam cheias de homens com barba que reivindicam, do centro da cidade, uma vida rural que nunca viveram. Hoje o homem moderno é lumbersexual. Um vocábulo híbrido que deriva de metrossexual, mas substitui o prefixo de metropolitano por “lumber”, lenha em inglês. Aqui, em Hackney e seus arredores no leste de Londres, está o habitat predileto desse novo espécime urbano.

Broadway Market

 

O restaurante F. Cooke, no número 9 da Broadway Market. / Lionel Derimais

De um extremo do parque de London Fields sai a rua Broadway Market, que termina no Regent´s Canal, em Haggerston. Durante anos a rua abrigou um mercado de frutas e verduras que foi decaindo até que, no começo da década passada, ficaram apenas duas ou três bancas. Em 2004, foi substituído por um mercado de comida que se transformou com os anos em um paraíso da cozinha de rua – talvez a tendência gastronômica mais pujante de Londres – e hoje é um dos lugares alternativos preferidos pelos modernos locais nos fins de semana. A transformação não esteve isenta de polêmica e no final de 2005 um grupo de moradores ocupou o Francesca´s Café, no número 34, em protesto pela política comercial das autoridades locais, convertendo-se em um símbolo da gentrificação de Hackney.

O mercado de rua funciona aos sábados das 9h às 17h. Bancas de saladas, de queijos franceses ou italianos, de cozinha caribenha, vietnamita ou etíope; porcos assados, carne orgânica, um prato de risoto de cogumelos com salada de rúculas, azeite de trufa e queijo Grana Padano por seis ou sete euros (18 a 21 reais). Cheiros deliciosos se sobrepõem enquanto você passeia entre as bancas ao ritmo lânguido do folk de um músico que toca banjo em uma esquina. O ambiente tem algo de povoado da febre do ouro das montanhas do Colorado, passado por um filtro retrô do Instagram. Mas se você mexer nas refinadamente rústicas mochilas que estão nas costas dos frequentadores, encontrará um MacBook Air, não uma picareta ou uma bolsinha com pepitas de ouro.

Anton Wunderlich (violão), Dakota Jim (acordeom) e Louisa Jones (contrabaixo). / Lionel Derimais

No calor da fumaça das bancas novos comércios surgiram na Broadway. Livrarias, lojas de delicatessen e pequenas cafeterias povoadas por solitários barbudos concentrados em seu computador portátil, degustando diferentes variedades de cafés com pedigree ético. O hipster conhecia as variedades do café; o lumbersexual se preocupa, também, quanto dano o café fez ao planeta até chegar na sua xícara.

Os novos locais convivem, porta a porta, com velhos negócios tradicionais, como a barbearia que ocupa o número 54. Os mais cinéfilos irão se lembrar dela por ser o lugar no qual um cliente é degolado no começo de Senhores do Crime, de David Cronenberg. Dizem que se alguém ficar tempo suficiente em frente da vitrine e demonstrar, com sua linguagem corporal, que reconhece o estabelecimento, Ismail Yesiloglu, seu proprietário, irá brandir sua navalha insinuando que o cliente sentado diante dele terá a mesma sorte que o do filme.

Outro clássico da rua é o F. Cooke, um estabelecimento maravilhoso de tortas salgadas, enguias e purê de batatas que está no número 9 desde 1900. Quando a noite cai e os descendentes de Frederick Cooke, que continuam tocando o negócio, terminam de entregar o mesmo menu que oferecem há mais de 100 anos, as luzes se apagam, as velas se acendem, e o lugar se transforma no Peters & Co Gin Palace. Um local de apreciadores de gim, como os que abundavam na Londres vitoriana, mas em versão pop up e passados pela mão de Emma Peters, responsável pelo célebre clube gay Twat Boutique. Um lugar curioso para tomar uma gim-tônica com alguma das mais de vinte referências oferecidas de gim com tônica Fever Tree pelo preço, mais do que moderado pelos moldes londrinos, de seis euros (18 reais).

A padaria Yeast, na Broadway Market. / Lionel Derimais

Netil Market

Ao redor do Broadway Market sugiram outros mercadinhos que formam o que já se conhece como Off Broadway, um formato alternativo dos grandes teatros da rua homônima de Nova York. Um deles é o Netil Market, que abriu há quatro anos e é realizado também aos sábados em um solar da vizinha Westgate Street (números 11 a 25). Pequenas lojas de curiosidades, artesanato, barbearias e, obviamente, bancas de comida. Tudo parece construído à mão, como mandam os cânones lumbersexuais.

Dentro de uma cabana de madeira, Patrick Archer, nascido em Birmingham há 24 anos, mas morador de Hackney há três, coloca toras de madeira em um forno à lenha. Tempos atrás, comprou um livro de como construir um forno de pizza e no outono começou a trabalhar. Conta que acaba de decidir o nome de sua pequena banca: Pizzas Don´t Cry (as pizzas não choram). “Queria construir algo com minhas próprias mãos”, explica, com a cara suja de fuligem. “Conheci as pessoas do mercado e me propuseram fazer algo aqui, de modo que me decidi por um forno de pizzas. É algo primitivo, somente lenha e fogo”. Sua especialidade, por 9,50 euros (30 reais), é uma pizza de batata, alecrim e queijo gorgonzola.

 

Ezra Road, no bairro londrino de Hackney. / Lionel Derimais

O Netil Market é uma parte da Netil House, uma espécie de comunidade criativa com sede em um edifício próximo, no número 1 da mesma rua Westgate, onde uma centena de artistas, desenhistas e empreendedores locais têm seu estúdio.

No sótão, encontra-se um café-terraço com vistas panorâmicas da cidade chamado Netil360, que no inverno é alugado para eventos e a partir da primavera se transforma em um dos locais mais imprescindíveis da área.

Se tanta criatividade abriu o apetite do lenhador urbano, um pouco mais abaixo é possível procurar uma dose extra de manteiga na Yeast Bakery, uma pastelaria que serve hoteleiros seletos da cidade e que nos sábados ocupa uma garagem na Westgate, onde Angela e Ben, um casal encantador, se esmeram em preparar os melhores croissants e pedaços pecaminosos da confeitaria bretã. “Queríamos ser os melhores em alguma coisa”, explica Bem. “E nos decidimos pelos croissants”.

Um bom lugar para encerrar o dia é a rua Mare, ali nas imediações, onde uma série de lugares foram abertos ou reformados até transformá-la em um dos destinos preferidos dos notívagos de Hackney. No Look Mum No Hands! é possível tomar um café enquanto a bicicleta é consertada, e no Oslo, ao lado da estação Hackney Central, dançar com música ao vivo. Mas nenhum lumbersexual deveria perder a Cock Tavern, um pub com ampla gama de cervejas artesanais que no ano passado foi eleito o bar mais beard friendly (amigo dos barbudos) do Reino Unido, distinção outorgada pela chamada Frente de Libertação da Barba, um grupo que “faz campanha em apoio às barbas e combate a discriminação contra quem as usa”.

Oliver, um jovem músico, toca na Columbia Road. / L. Derimais

“Vendemos barato porque todo nosso produto é roubado”, brinca um lojista entre baldes cheios de flores. Dezenas de floristas vendem aos gritos sua mercadoria à multidão de visitantes que se desvia dos ramos, arriscando-se a perder um olho espetado em um lírio. Dizer domingo pela manhã em Hakney é o mesmo que dizer Columbia Road Flower Market. Esse é o mercado de flores mais importante de Londres, parada obrigatória dos lumbersexuais em busca de um ramalhete para decorar seus apartamentos para lembrar dessa vida no campo que nunca viveram.

Barber & Parlour, na rua Redchurch, em Londres. / Lionel Derimais

Ao redor das flores há um emaranhado de galerias de arte, lojas de antiguidades lojas de roupas ou pequenas joias como a perfumaria Angela Flanders, onde se pode adquirir um perfume personalizado para recordar os odores das flores da Columbia Road. A oferta gastronômica também é rica, e inclui vinhos orgânicos (Brawn), bagels (Café Columbia), queijos (Jones Diary), peixes fritos (Lee’s Seafood) e até um curioso supper club, espécie restaurantes caseiros semissecretos que proliferam na cidade, instalado em uma loja de curiosidades (Printers & Stationers, na Ezra Street, que fica perto).

Hackney City Farm

Mas se o que se busca é uma experiência rural de verdade, sem sair do leste de Londres, aí está Hackney City Farm, na Goldsmiths Row, nas imediações. Essa fazenda urbana, que funciona desde 1984 graças ao trabalho voluntário de um grupo de moradores, é uma autêntica instituição no bairro. Ovelhas, porcos, burros, coelhos, aves domésticas e até abelhas recebem os visitantes dessa fazenda de ar hippie que lembra que os lumbersexuais não são os primeiros urbanos a proclamar os benefícios da vida rural.

Lionel Derimais

Na mesma fazenda está localizado o restaurante Frizzante, muito popular entre as famílias jovens e modernas para um brunch nos domingos. Eddy Ambrosi, seu jovem chef italiano, membro do movimento slow food, é um firme defensor da cozinha sustentável e local. Enumera em detalhes cada um de seus fornecedores, que incluem cooperativas de agricultura orgânica, açougues que fazem salsichas caseiras e grupos que compram diretamente de pescadores.

“Minha intenção é cozinhar o mais local possível, e enraizado na comunidade”, explica. “Temos de ser conscientes de que é preciso ser sustentável. Acho que podemos contribuir para que Londres seja mais consciente sobre o que consome e como consome.”

Redchurch

Com as botas ainda sujas do barro da fazenda, pode-se caminhar até a rua Redchurch, na mesma zona, Shoreditch, onde começou o passeio, e terminar esse fim de semana lumbersexual deixando a marca na Labour and Wait, uma deliciosa loja de design atemporal e rudimentar. É um verdadeiro prazer perder-se entre a cuidadíssima seleção oferecida por esse estabelecimento fundado em 2000 e que se mudou para a Redchurch há quatro anos. Aqui o elemento lumbersexual –à parte a barba de um palmo e meio de um dos atendentes, tratada com carinho – é algo mais sutil. Mas ver jovens de finos dedos curtidos nas teclas de um Mac interessar-se por uma caixa de ferramentas artesanal de couro (112 euros) ou por apitos que imitam o gorjeio dos pássaros (23 euros) não deixa de ter sua graça.

Pablo Guimon – 08/01/2015

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/01/08/elviajero/1420720606_640710.html

Coca-Cola prega criatividade além da propaganda

A propaganda é apenas a ponta do iceberg de comunicação da Coca-Cola. Segundo o vice-presidente global de publicidade e conteúdo da marca, Jonathan Mildenhall, palestrante no 15º Congresso Brasileiro de Embalagem — promovido pela Abre (Associação Brasileira de Embalagem) nesta terça (14) e quarta-feira (15), em São Paulo —, a mídia é apenas um dos meios de conversação com o seu cliente e a criatividade tem que transbordá-la para de fato se chegar à “felicidade”, parte do conceito mundial da companhia.

Durante sua apresentação, chamada de “Storytelling: do consumidor para os consumidores”, o executivo comentou boa parte do projeto “Content 2020”, seu plano para atingir o máximo de “conteúdo líquido” e “conversação” com seu público, abordando tudo aquilo que considerou como desdobramentos da criatividade, que segundo Mildenhall é tudo aquilo que transforma conhecimento em valor. “Temos que vivenciar uma multiplicidade de canais de contato e comunicação com o consumidor, em ambos os sentidos. A marca só é moderadora e curadora desse fluxo de conteúdo”, afirmou Jonathan Mildenhall durante sua apresentação.

O conteúdo “líquido”, segundo o executivo, é aquele que se adapta ao recipiente, não é pontual demais para “evaporar” ou inflexível demais, como uma pedra de gelo. E o storytelling, termo tão usado na publicidade atualmente, se encaixa justamente neste ponto: receber e contar histórias com forma e conteúdo criativos promove uma experimentação, interação e um elo com a marca muito superior ao simples impacto passivo de uma campanha publicitária.

O vp global da Coca-Cola defende que a criatividade é muito mais ampla que “um comercial de 30 segundos na televisão”, metonímia que usou para exemplificar a propaganda. Como exemplos, o palestrante citou cases de sucesso — e até mesmo um de fracasso — da companhia onde trabalha desde dezembro de 2006.

O primeiro exemplo de storytelling e conversação com os consumidores apresentado foi da Coca-Cola Zero nos Estados Unidos, onde a marca conversou com seu público nas redes sociais por seis meses para lançar um concurso para sua “dancinha” e posteriormente uma campanha publicitária com o mesmo mote. As próprias redes sociais também foram exaltadas por Mildenhall, que defendeu que temos que “aliar a tecnologia à criatividade e aos consumidores, que constroem a história da marca”. Entre outras apresentações, o vp global mostrou os nomes impressos nas latinhas na Austrália, a “volta pra casa” nas Filipinas e a coleção de roupas da Dolce & Gabbana. O “fracasso” da marca foi o Fanta Big Bounce Experience, que não teve repercussão digital, mas rendeu “bons aprendizados” à marca, segundo o palestrante.

O executivo ainda acrescentou que o backstage das campanhas publicitárias também são grandes ferramentas para “humanizar” a marca ser mais um ponto de conversação com os consumidores.

Briefing é inspiração

Assessorada por uma série de agências globalmente, a Coca-Cola não põe a mão diretamente na criação de suas prestadoras de serviços publicitários, mas influi indiretamente ao auxiliar e munir seus criativos. Mildenhall afirmou em sua palestra que os briefings da marca precisam ser inspiracionais, para fazer com que os profissionais se sintam motivados a darem o seu melhor no desenvolvimento daquele trabalho.

Modelo de inovação

Segundo Mildenhall, o orçamento de comunicação de uma companhia deve seguir os preceitos do 70/20/10, onde 70% da verba vai para ações de baixo risco e retorno mais garantido, 20% para projetos que já assumam um papel mais inovador e 10% para ideias novas e “malucas”, com alto risco, mas que seriam formidáveis caso vingassem.

Fonte: propmark

Nova campanha da Coca-Cola traz 600 nomes nas embalagens

A Coca-Cola volta a apostar na “campanha dos nomes” em sua primeira ação de 2015. Dessa vez, serão 600 nomes nas embalagens do refrigerante.

Agora, o mote é “Bebendo uma Coca-Cola com”, para estimular o compartilhamento. A ideia é fazer a pessoa encontrar o nome de alguém especial em sua vida e levar uma Coca para eles beberem juntos.

O comercial estreia na televisão em 15 de janeiro, mas você já pode ver em EXAME.com, ao final do texto.

“Share a Coke” é uma campanha global. Lá fora, foi criada pela Wieden + Kennedy de Portland. No Brasil, o vídeo foi adaptado pela JWT, que incluiu uma cena de São Paulo.

No novo comercial, “Júlia”, amizade e romance estão envolvidos no ato de encontrar uma latinha ou garrafa de Coca com algum nome especial.

Os nomes foram levantados pela marca por meio de uma pesquisa encomendada e abrangem 90% da população de adolescentes do país.

Confira:

marketing – 05/01/2015 – Guilherme Dearo, de EXAME.com

http://exame.abril.com.br/marketing/noticias/nova-campanha-da-coca-cola-traz-600-nomes-nas-embalagens

As novas ondas do rádio

Na última terça-feira (9/12), a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) lançou a campanha “Smart é ter rádio de graça no celular”. O objetivo é estimular o consumo do rádio nos aparelhos móveis, sugerindo à população que opte por celulares com chip de rádio FM. Com o rádio no celular, defende a associação, não é necessário usar o pacote de internet para ter acesso à informação e entretenimento.

A campanha envolve spots de rádio, peças publicitárias para internet, mídia impressa e redes sociais. “O foco é valorizar a recepção da programação do rádio pelo ar, gratuitamente. Para o público, que em sua maioria consome planos pré-pagos de internet e de celular, ter rádio sem pagar nada é um ativo muito relevante”, afirma o presidente da Abert, Daniel Slaviero.

Outro objetivo é sensibilizar a indústria a fabricar celulares com chip FM de rádio. Um levantamento da associação mostra que, de 206 aparelhos celulares à venda no mercado, 88% já vêm com esse dispositivo integrado. Nos celulares até R$ 300, esse índice chega a 99%. No entanto, o percentual cai para 62% nos aparelhos acima de R$ 1 mil.

De acordo com Slaviero, o principal motivo é a pressão das empresas de telefonia pelo aumento do consumo de dados. Os celulares mais sofisticados consomem mais banda larga e o rádio gratuito pode prejudicar a rentabilidade das empresas. “A nossa meta é chegar a 100% dos aparelhos comercializados legalmente no Brasil com o FM embutido.”

Em 2004, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/IBGE), a presença dos aparelhos de rádio nos domicílios era de 88,1%. Em 2009, esse número permaneceu o mesmo e, em 2013, baixou para 75,8%. Por outro lado, de acordo com dados da Abert, em 2004, a presença do rádio FM no celular era de apenas 3,3%; em 2009 passou para 35,5%; e em 2014 alcançou o patamar de 88%. “Isso chama a atenção porque, no mesmo período, a taxa de audiência não caiu significativamente e as receitas do setor têm se mantido em níveis superiores à inflação, o que nos leva a perceber que a população está consumindo mais rádio pelos aparelhos móveis”, destaca Slaviero.

Segundo pesquisas divulgadas pelo InterMeios, a receita do rádio cresceu 44,95% nos últimos cinco anos – 10,45% só em 2013. De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA/IBGE), cresceu 31,87% no mesmo período. E em uma nova pesquisa do Ibope Media, lançada em novembro, foi identificado que: 90% dos brasileiros são ouvintes de rádio; para 70% desse público o meio é uma alternativa de entretenimento; a população dedica, em média, três horas e 51 minutos por dia para ouvir rádio.

“A realidade é que o rádio é personalista, o ouvinte não troca de rádio todo o tempo. Você pode ouvir seu programa fazendo várias outras coisas, ao contrário da televisão e da internet. E o rádio tem uma característica que ninguém tem: o serviço local. Se você quiser saber algo da sua cidade só vai encontrar informações no rádio. Esta conjunção de características é que tem feito o rádio se manter”, acredita Luis Roberto Antonik, diretor-geral da Abert.

Para ele, qualquer coisa que distraia o ouvinte é concorrente do rádio: televisão, internet, mídias sociais, aplicativos de bate-papo. Daí a luta para despertar o radiodifusor: se ele não fizer mídia espontânea sobre o celular com rádio, diz Antonik, estará comprometendo o seu negócio no médio prazo.

Além disso, a audiência passa a sair do receptor comum e migrar para o carro – são 45 milhões de veículos equipados com rádio – e para a web. Antonik conta que a Abert está investindo nisso, criando um integrador tipo TuneIn e desenvolvendo aplicativos para iOS e Android gratuitamente, para que as rádios menores também possam usufruir. “Temos que insistir que o nosso negócio maior ainda é o rádio captado do ar”, defende.

Conteúdo é tudo – Existe atualmente um movimento em busca de conteúdo diferenciado para o rádio. Já que todo mundo tem acesso à música, quem faz rádio tem buscado produzir o que a música não supre. É o que diz o DJ, produtor musical e podcaster Maestro Billy. Um dos maiores conhecedores sobre podcasts no Brasil, ele acredita que o que as rádios atualmente buscam, e o que se torna seu grande diferencial, é: informação diferente, gente interessante, bom conteúdo.

“Além disso, as rádios vem se modernizando, criando novas ferramentas de interação com seus ouvintes, e também usando a tecnologia – que teoricamente as engoliria – em seu benefício. Veja o exemplo da Rádio Sul América Trânsito, que atualmente usa as informações do aplicativo Waze para dar boletins de trânsito melhores. É isso que podcast vem fazendo há tempos: gente diferente, com conteúdo diferente, dinâmico, atual, interativo e interessante.”

Uma pesquisa sobre consumo e comportamento de quem ouve podcast, lançada neste ano com cerca de 16 mil ouvintes, a Podpesquisa identificou que a utilidade do conteúdo é a terceira característica mais importante para quem ouve podcast (75,7%), atrás de entretenimento (90,4%) e qualidade do áudio (78,4%). Música ficou em sétimo lugar (17,6%).

Para Patrick Torquato, da rádio Frei Caneca FM, emissora pública do Recife (PE), a grande questão de fato não é sobre internet versus rádio, nem sobre a plataforma, mas sim sobre o conteúdo. “O rádio se perdeu com a chegada da internet, mas quem está aparecendo é quem tem um podcast bacana, quem faz um conteúdo legal”, afirmou durante uma reunião aberta de rádios na Semana Internacional de Música de São Paulo, na última sexta-feira (5/12).

“Vendo pela perspectiva do conteúdo é mais fácil pensar o que será a rádio daqui a 20 anos. Eu entendo que, nesse sentido, vou usar a internet como aliada, não como concorrente”, defendeu.

Unidos venceremos – Muitos programas de rádio já são disponibilizados via podcast, por exemplo, o que, para Billy, torna essa ferramenta realmente um agregador antes de ser um adversário.

Torquato acredita que um dos grandes benefícios de aliar as duas coisas é se fazer presente na vida do ouvinte onde quer que ele esteja. “Se rádio não pega na estrada, eu posso fazer um podcast pra pessoa ir ouvindo até chegar no seu destino”, exemplificou.

Mas ainda existem muitas rádios que continuaram apegadas ao modelo de mercado antigo, sem usar a internet, diagnosticou Ricardo Rodrigues, vice-presidente da Associação das Rádios Públicas do Brasil, que também estava na SIM São Paulo. Segundo ele, com um modelo de comunicação “de cima pra baixo”, essas rádios perderam espaço para um meio que criou grande identificação com o público ao permitir que ele fizesse a programação da forma como achasse melhor.

“Quando a rádio se coloca mais ao lado do ouvinte, vira a chavinha da proximidade quanto ao formato”, defendeu Rodrigues, que foi durante sete anos diretor da rádio UFSCar, de São Carlos (SP). “Na UFSCar, ouvimos tudo o que estava acontecendo na internet e levamos para a FM. A internet é tão grande que tudo vira pontinho de areia, então na emissora a gente faz uma filtragem e uma pesquisa. Nosso sinal vai na web e na FM e a gente trabalha esses ouvintes igualmente”, conta, avaliando que tanto público quanto artistas valorizam essa relação.

De qualquer modo, rádio sempre foi interativo. O “pedido do ouvinte”, o “recado”, além da rapidez da informação, o tornam muito próximo do que a internet proporciona, lembra o Maestro Billy. Por isso ele acredita que o rádio nunca vai morrer. “Pode mudar, se atualizar, se modernizar. O que já está ocorrendo: em quesitos técnicos, as rádios já transmitem em formato digital; em quesitos artísticos, podemos notar algumas similaridades com a internet.”

Ao analisar a história do rádio, vemos que ele foi um grande revolucionário da comunicação de massa. Com ele, tudo ficou mais dinâmico. “O que não é isso além de um Twitter de antigamente?”, questiona Billy.

Ele acredita que, seja no formato – que pode se adaptar -, seja na transmissão – que chega ainda onde a eletricidade e o 3G não chegaram -, é isso que faz com que o rádio nunca vá morrer

•  dezembro 12, 2014 •

http://www.culturaemercado.com.br/destaque/as-novas-ondas-do-radio/