Coisas que temos, coisas que não precisamos

Christopher McCandless, um jovem americano, ganhou o mundo em sua biografia nas telas dos cinemas em 2007 dirigida por Sean Penn, baseado no livro de Jon Krakauer. McCandless ganhou fama devido a aventura que fez no ínico dos anos 90 em direção ao Alasca, abandonando a vida média alta que tinha por problemas familiares e por seu desprezo pelo materialismo na sociedade.

Descontente, ele prefere se isolar do mundo e procurar a felicidade nas coisas simples da natureza e entrar numa vida individualista, até mesmo mudando seu nome para Alexander Supertramp, como se esse fosse um avatar de uma nova pessoa, que é quem ele gostaria de ser.

Num cenário mais moderno do que McCandless estava, nos encontramos nos dias de hoje, mas com um aspecto parecido: a do individualismo.

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Emile Hirsch como Christopher McCandless

Não é novidade que cada vez mais, sem percebermos, somos “empurrados” a acompanhar o que a tecnologia tem de novo a oferecer. E como essa tecnologia significa maior conforto, nos esbaldamos e ainda queremos mais.

Analisando o que toda essa modernidade traz a sociedade, nem tudo é flores. Parafraseando Isaac Newton, pra toda ação tem uma reação. O que pode nos levar a concluir que o que hoje vem pra facilitar nossa vida, pode acabar nos afastando do sentido de se esforçar mais para obter algo, nos acostumando a ter tudo à mão.

Exemplo disso é o GPS, que pode nos tirar de enrascadas numa viagem. Eles traçam todo o caminho que devemos percorrer, fazendo que nem precisemos nos comunicar com uma pessoa na rua. E é aí que perdemos a chance de conhecer alguém e de possivelmente coletar informações importantes e, claro, de ouvir ótimas histórias. E exemplos do dia a dia são os constantes aplicativos disponibilizados para celulares que se podem fazer quase tudo, onde quer que você esteja.

Vemos também crescer o número de pessoas em ônibus ou metrôs indo trabalhar com seus iPods e fones de ouvido, quietos em seus cantos, quase como uma placa no pescoço escrito “não quero conversar”. Ou o extermínio das videolocadoras que, observando hoje, percebemos que na maioria das vezes íamos com amigos escolher um filme e que assistíamos todos juntos. Hoje, fazemos o download e assistimos no computador, sozinhos.

image3_post1.jpgGoogle Images

image4_post1.jpgObra de Oco Sapiens

Engraçado analisar que o ser humano, juntos, ajudam o individualismo crescer. Com o desenvolvimento da sociedade capitalista, a busca pelo consumo do comodismo aumentou. O convívio social está cada vez mais escasso. As pessoas, pelo menos a maioria, já não fazem tantos esforços para se encontrarem, acreditando que manter contato online já é o bastante. Sem que percebam, com o tempo esse contato vai se esvaindo, até que em algum momento, desaparecerá.

Observando fragmentos de Nietzsche, o mesmo afirma sua visão sobre a formação da civilização, que foi necessária força física para “adestrar” os mais fracos a obedecerem regras. Acreditava que os homens foram domesticados a não seguir seus instintos. Hoje parece continuar o mesmo, pessoas sentindo a necessidade de acompanhar o que as empresas estão produzindo de novo. Pode não ser a realidade de todos, mas é o desejo de muitos.

Completando ainda com o argumento de Max Weber, ele define que o indivíduo que não se adaptar ou se conformar com as relações de mercados e ações capitalistas, é jogado às ruas sem trabalho.

Alguém contra esse tipo de pensamento foi Henry David Thoreau, quem acabou virando referência e influenciou o anarquismo individualista. Era a favor de desfrutar a terra sem possuí-la. E com essa filosofia, ele foi morar sozinho no meio de uma floresta aos 27 anos de idade, com medo de que na hora da morte descobrisse não ter vivido de verdade. E sem coincidências, foi um dos filósofos que influenciaram McCandless em seu abandono da vida em sociedade.

image5_post1.jpgImagem de divulgação do filme “Na Natureza Selvagem”

Logo, o problema não é a tecnologia, pelo contrário, ela nos ajuda. O problema é o que fazemos com ela. É preciso haver equilíbrio. Contudo, podemos buscar ser felizes como acharmos melhor. Como o filósofo Kierkegaard diz, o importante para o ser humano é deixar de viver por hábito e encontrar algo por qual queira viver e morrer.

E assim como descreve em sua biografia, Christopher McCandless aprende que a felicidade só é verdadeira quando compartilhada. Que depois de aprendido, compartilhemos a nossa também, mas que seja muito além das redes sociais
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Brasil tem três chaves da pós-modernidade, diz Maffesoli

Para o sociólogo francês, professor da Universidade de Sorbonne, criatividade, temporalidade focada no presente e sentido de comunidade são características nacionais

por Isabela Vieira – Agência Brasil   publicado às 08:43 de 11/11/2014, modificado às 08:43 de 11/11/2014

Ao reafirmar ontem (10) que o Brasil é um “laboratório da pós-modernidade”, o sociólogo francês Michel Maffesoli, professor da Universidade de Sorbonne, destacou que o país tem três das cinco chaves para compreender a sociedade contemporânea e acelerar o seu crescimento econômico. Ele participou de palestra na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ).

O sociólogo francês Michel Maffesoli. Foto: Jérôme Choain/Flickr (2011)

A primeira chave, segundo Maffesoli, é a criatividade que, na sua avaliação, é uma das marcas da juventude brasileira. “É um momento que, no sentido simples, há uma efervescência, um formigamento”. O sociólogo, que é observador atento dos movimentos envolvendo os jovens, entende que essa criatividade é uma das marcas do novo “valor do trabalho” (uma das chaves de sua teoria), que precisa ser apropriado por empresas e gestores.

Outro aspecto apontado pelo sociólogo é a “temporalidade” focada no presente, que atribui ao tempo todas as transformações, em contraposição ao futuro, chave da modernidade. “Há energia intensa no ar [no Brasil, que deve ser aproveitada]”, disse.

A terceira chave, de acordo com Maffesoli, é aquela que contrapõe a ideia de individualismo. Para o sociólogo, na contemporaneidade, as pessoas se juntam cada vez mais em tribos, para desfrutar das experiências. “Vejo nos meus alunos brasileiros: não é mais o eu, é o nós; a comunidade passa a ser mais importante que o indivíduo, que era a marca moderna”.

As demais chaves são usadas por Maffesoli para explicar as transformações da contemporaneidade. Ele cita o “utilitarismo”, por meio da estética compartilhada. “Está emergindo a estetização da existência, das emoções por meio da música e da arte. Tudo é feito para se compartilhar e vibrar junto, como os shows esportivos, musicais e religiosos”. Por fim, a saturação da sistematização da razão, o “racionalismo”, a necessidade atual de “mobilizar afetos”.

Durante a palestra, o sociólogo também destacou que o trabalho e o dinheiro, um dos pilares da sociedade moderna, estão sendo substituídos por produtos da criatividade, como arte e cultura, com potencial muito maior de mobilização.

Como exemplo dessa teoria, ele mencionou uma pesquisa encomendada pela equivalente à Federação das Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp) da França, que concluiu que “os salários não são mais o grande retentor de talentos. As pessoas querem trabalhar em empresas cool [legais], que mantenham os trabalhadores com políticas de bem-estar”.

Maffesoli também abordou o atual modelo educacional, classificado por ele como “podre” por ser vertical. O ideal, sugere,  seria uma forma de iniciação, de acompanhamento do aprendiz. “O jeito pós-moderno é horizontal”, disse. “De fato, com a tecnologia, são os fóruns de discussão, as redes sociais, como o Facebook que recusam o poder vertical, mas precisam de uma autoridade [o mediador, o administrador] a vingar”.

Perguntado sobre o livro do professor da Escola de Economia de Paris, Thomas Piketty, O Capital no Século 21, que fala da disparidade da concentração de renda, Maffesoli disse que não teve tempo de lê-lo. Mas que o aumento das desigualdades, no contexto atual, resultado do acirramento das diferenças, da concentração de pessoas em tribos, já era esperado. “A igualdade sempre foi um mito na modernidade”, reforçou o intelectual da pós-modernidade.

http://www.cidadenova.org.br/editorial/informa/934-brasil_tem_tres_chaves_da_pos_modernidade

Para Maffesoli, crise tem origem na saturação dos valores da Modernidade

Para sociólogo francês, Brasil é um laboratório pós-moderno ao congregar valores como criatividade, presente e comunidade

por Clarice Spitz

sociólogo francês Michel Maffesoli, um dos maiores teóricos da Pós-Modernidade, diz não ver a economia na origem da crise mundial. Antes, afirma o professor da Sorbonne, diretor do Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano e do Centro de Pesquisas sobre o Imaginário (M.S.H.), que veio ao Brasil para uma série de conferências, a crise está, na base, na saturação de valores da Modernidade, como individualismo, racionalidade, futuro como progresso, trabalho como valor e utilitarismo.

Michel Maffesoli, sociólogo francês, não vê a economia na origem da crise mundial. Professor veio ao Brasil para série de conferências – Divulgação/Didier Goupy / Divulgação/Didier Goupy

Para uma plateia formada por acadêmicos, estudantes e empresários em conferência nesta segunda-feira na Associação Comercial do Rio em evento organizado em conjunto com o Instituto Palavra Aberta e com o Ibmec, Maffesoli diz ver no Brasil um laboratório da Pós-Modernidade, por abrigar na sua cultura valores como criatividade, presente e comunidade. Ele afirma que a sociedade de maneira geral vive um momento paradoxal em que conceitos modernos e pós-modernos coexistem.

— A palavra democracia não quer dizer mais nada, a liberdade não está mais na pauta do dia. O conceito de Estado-Nação dá lugar ao localismo, ao mosaico de ideias. Não é mais o materialismo que vai predominar, a dimensão somente econômica não vai predominar — afirma o professor, que orientou vários estudantes brasileiros na França.

Com base nas novas tecnologias, no conceito de horizontalidade da internet, na percepção das gerações mais jovens, Maffesoli baseia sua série de hipóteses. Agora, segundo ele, não existe mais o indivíduo, mas pessoas múltiplas. Não se está preso a uma identidade sexual ou profissional, pode-se ser várias coisas diferentes e não excludentes. O presente se contrapõe à noção de futuro. As coisas inúteis também são importantes, haja vista que a Google quer que seus funcionários gastem parte do tempo de seu dia pensando em outras coisas, que não apenas o trabalho.

— O fim do mundo não é o fim do mundo, mas a sua metamorfose. Nós vimos por muito tempo a luz de uma estrela morta — disse, ao afirmar que ainda vivemos com os valores do século XIX.

Autor de diversos livros, ele lança no Brasil ‘Homo Eroticus – As Comunidades Emocionais’, pela editora Forense. Ao ser indagado, diz que não comenta o livro do colega Thomas Piketty “O Capital no século XIX” porque não o leu. Grande demais, disse. Ele diz, no entanto, que o igualitarismo, democracia, liberdade e educação são temas que estão em crise.

— A democracia moderna se baseia no hierárquico, mas agora há o retorno das diferenças. Podemos pensar num ajuste das desigualdades, mas não no fim das desigualdades. Estamos em um período em que a crueldade vai retornar. A Modernidade foi essencialmente dramática, mas havia uma solução, agora vamos nos virar com o que dá prá ser. Não se resolve tudo, mas, ao mesmo tempo, há vida com sombra e luz — afirma

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/economia/para-maffesoli-crise-tem-origem-na-saturacao-dos-valores-da-modernidade-14522523#ixzz3MeemtIFE

“Hiperconsumo está condenado à morte”, diz o filósofo francês Gilles Lipovetsky

23º Congresso de Marketing da ADVB/RS, realizado ontem (dia 24 de setembro) no Teatro Bourbon Country, em Porto Alegre, foi um verdadeiro networking para cerca de 1,2 mil participantes, que aprenderam com pensadores e especialistas de grandes empresas os novos movimentos que ditarão as relações de consumo, práticas que vão mexer com o comportamento das pessoas e o mundo dos negócios

Estamos diante de uma nova sociedade, em que o consumo de massa deixou de existir dando espaço para o hiperconsumo. O neoconsumidor do século 21 fez uma ruptura absoluta com o modelo de compras dos anos 40 e 50, onde reinava o sentimento do semicoletivo: uma televisão, um telefone, um carro e outros equipamentos eram suficientes para uma família. Esta ideia do uno ficou no passado, predomina, agora, o pensamento de pluralidade, ou seja, muitas coisas para cada indivíduo, um fenômeno impulsionado pela tecnologia, mas também pela descoberta do colecionar experiências (valor do prazer, satisfação e felicidade). Porém esta explosão do consumo generalizado deve novamente ter um revés. “Mesmo que não desapareça imediatamente, o modelo do hiperconsumo e do hiperindividualismo está condenado à morte. Vamos assistir ao nascimento de um consumidor frugal, um consumidor responsável e colaborativo, mais atento ao ecológico e que sabe dividir, compartilhar”, disse o filósofo francês Gilles Lipovetsky no 23º Congresso de Marketing, promovido pela ADVB/RS no dia 24, no Teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre.

Com o tema Novas Conexões para Novos Negócios, o evento das 8h às 18h30 reuniu importantes nomes do cenário do marketing: o diretor de Shopper Marketing Brasil da Coca-Cola, Marcelo Barreto, o CMO do Itaú Unibanco, Fernando Chacon, o CEO da FLAG, Roberto Martini, e o co-fundador da Global Shapers Community Porto Alegre, Tomás de Lara. Ao destacar que o congresso é uma iniciativa para capacitar o mercado gaúcho, tornando-o mais forte e competitivo, o que contribui para o desenvolvimento do Estado, o presidente da ADVB/RS, Carlos Bierdermann, disse que os conceitos difundidos e a troca de experiências com os especialistas convidados resultam em um aprendizado único. “Todos os segmentos possuem relação com o marketing e precisam dele para compreender se destacar no mercado. O desafio de cada participante é levar todo esse conhecimento para as organizações e transformar tudo isso em desenvolvimento, excelência e novos negócios”, frisou para os mais de 1,2 mil participantes, que assistiram a sequência de palestras.

Rebuscando a sociedade de consumo desde o pós-guerra a uma projeção do futuro, Gilles, que é autor de livros como Os tempos Hipermodernos, A Felicidade Paradoxal: Ensaio sobre a , A Era do Vazio, disse que o hiperconsumo apresenta diversas características, mas principalmente a individualização do comportamento, originada na emancipação do indivíduo. “O neoconsumidor é um nômade, é volátil, é imprevisível e infiel. Ele vive em uma bulimia crescente de busca de gratuidade, ao mesmo tempo sonha com produtos caros, de luxo. Há uma bipolarização das compras, em que prevalece um modelo cultural do consumidor que aspira coisas para ele e que não quer mais se privar de produtos que tragam satisfação. Isso não significa um direcionamento à zona do low cost (baixo custo)”, explicou o francês no painel O Papel do Marketing nas Novas Relações de Consumo.

PROPÓSITOS
– O propósito das organizações de conseguirem ofertar satisfação e felicidade ao consumidor também foi replicado pelos demais palestrantes. Com o tema O Papel do Branding na Conexão com o Consumidor, o executivo Fernando Chacon mostrou como o Itaú Unibanco foi além do seu core business e vem alcançando sua razão de existir: o propósito de transformar para melhor o mundo das pessoas, razão pela qual decidiu abrir um guarda-chuva de causas, desde educação à mobilidade urbana. Já Tomás de Lara, da Global Shapers Community Porto Alegre, disse que o mundo está entrando em uma era mais subjetiva, muito mais de criação do que produção. “Tudo está conectado, há um despertar da consciência e a biomética será parte fundamental dos novos conceitos, sendo levada para dentro das empresas”, comentou no painel A Evolução da Conexão com o Consumidor. Segundo ele, uma nova economia, chamada de circular, está se desenhando, ganhando contornos mais humanos, corroborativos, social e sustentável. A ordem, sentenciou, será o compartilhamento.

Nesta linha de mudanças de comportamento, o diretor de Shopper Marketing Brasil da Coca-Cola, Marcelo Barreto, ratificou os novos hábitos adquiridos pelo consumidor. Ao falar sobre O novo perfil do Shopper e impactos nas relações de consumo, ressaltou que são três as tendências de consumo que vão mudar os canais de venda: conveniências, racionalização e experiência. “Os shoppers compram para as próximas quatro horas ou até a manhã do dia seguinte. Com isso, as cestas pequenas estão crescendo em detrimento das grandes e o ticket de compra é menor, porém diário. Também há um deslocamento de público para o ‘atacarejo’, que só em 2013 registrou a abertura de 2 milhões de novas lojas”, relatou, ao dar três dicas para capturar essas novas oportunidades de vendas: diversificar a oferta, facilitar as compras, tornando-as mais intuitiva, e otimizar o sortimento. Já Roberto Martini, da FLAG, mostrou uma perspectiva futura mais dura. “A robotização substituirá o pensamento. Se antes um processo dependia de 40 pessoas, hoje são necessárias duas”, frisou, argumentando que a nova economia, a comunicação em rede, os novos negócios virão das tecnologias daqui para frente.

DESAFIO – Para o curador do 23º Congresso de Marketing, Ricardo Vontobel, que liderou o painel Transformando Tendências em Realidade nos Negócios – reuniu palestrantes em um debate – a sociedade vive um momento de mudanças intensas, rápidas e profundas. “Hoje, a produção somente na forma física não garante vantagem competitiva. Cada vez mais, os aspectos intangíveis de produtos e serviços passarão a fazer parte dos aspectos tangíveis, gerando um ambiente diferenciado de relacionamento com o consumidor”, afirmou. Acrescentou ainda que, com a globalização, se instalou um processo de comoditização, com preços semelhantes. “Precisamos encontrar diferentes maneiras de encantar e mobilizar o consumidor. O desafio é incorporar habilidades de resoluções criativas.” O 23º Congresso de Marketing teve como patrocinadores a Unisinos, Seprorgs, RBS TV e Leão Fuze. Apoiaram o evento Fecomércio-RS, Gerdau, Zero Hora, Morya e Teatro do Bourbon Country

http://www.portaldapropaganda.com.br/portal/propaganda/43647-hiperconsumo-esta-condenado-a-morte-diz-o-filosofo-frances-gilles-lipovetsky

“Hiperconsumo está condenado à morte”, diz o filósofo francês Gilles Lipovetsky

Estamos diante de uma nova sociedade, em que o consumo de massa deixou de existir dando espaço para o hiperconsumo. O neoconsumidor do século 21 fez uma ruptura absoluta com o modelo de compras dos anos 40 e 50, onde reinava o sentimento do semicoletivo: uma televisão, um telefone, um carro e outros equipamentos eram suficientes para uma família. Esta ideia do uno ficou no passado, predomina, agora, o pensamento de pluralidade, ou seja, muitas coisas para cada indivíduo, um fenômeno impulsionado pela tecnologia, mas também pela descoberta do colecionar experiências (valor do prazer, satisfação e felicidade). Porém esta explosão do consumo generalizado deve novamente ter um revés. “Mesmo que não desapareça imediatamente, o modelo do hiperconsumo e do hiperindividualismo está condenado à morte. Vamos assistir ao nascimento de um consumidor frugal, um consumidor responsável e colaborativo, mais atento ao ecológico e que sabe dividir, compartilhar”, disse o filósofo francês Gilles Lipovetsky no 23º Congresso de Marketing, promovido pela ADVB/RS no dia 24, no Teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre.

Com o tema Novas Conexões para Novos Negócios, o evento das 8h às 18h30 reuniu importantes nomes do cenário do marketing: o diretor de Shopper Marketing Brasil da Coca-Cola, Marcelo Barreto, o CMO do Itaú Unibanco, Fernando Chacon, o CEO da FLAG, Roberto Martini, e o co-fundador da Global Shapers Community Porto Alegre, Tomás de Lara. Ao destacar que o congresso é uma iniciativa para capacitar o mercado gaúcho, tornando-o mais forte e competitivo, o que contribui para o desenvolvimento do Estado, o presidente da ADVB/RS, Carlos Bierdermann, disse que os conceitos difundidos e a troca de experiências com os especialistas convidados resultam em um aprendizado único. “Todos os segmentos possuem relação com o marketing e precisam dele para compreender se destacar no mercado. O desafio de cada participante é levar todo esse conhecimento para as organizações e transformar tudo isso em desenvolvimento, excelência e novos negócios”, frisou para os mais de 1,2 mil participantes, que assistiram a sequência de palestras.

Rebuscando a sociedade de consumo desde o pós-guerra a uma projeção do futuro, Gilles, que é autor de livros como Os tempos Hipermodernos, A Felicidade Paradoxal: Ensaio sobre a Sociedade de Hiperconsumo, A Era do Vazio, disse que o hiperconsumo apresenta diversas características, mas principalmente a individualização do comportamento, originada na emancipação do indivíduo. “O neoconsumidor é um nômade, é volátil, é imprevisível e infiel. Ele vive em uma bulimia crescente de busca de gratuidade, ao mesmo tempo sonha com produtos caros, de luxo. Há uma bipolarização das compras, em que prevalece um modelo cultural do consumidor que aspira coisas para ele e que não quer mais se privar de produtos que tragam satisfação. Isso não significa um direcionamento à zona do low cost (baixo custo)”, explicou o francês no painel O Papel do Marketing nas Novas Relações de Consumo.

PROPÓSITOS – O propósito das organizações de conseguirem ofertar satisfação e felicidade ao consumidor também foi replicado pelos demais palestrantes. Com o tema O Papel do Branding na Conexão com o Consumidor, o executivo Fernando Chacon mostrou como o Itaú Unibanco foi além do seu core business e vem alcançando sua razão de existir: o propósito de transformar para melhor o mundo das pessoas, razão pela qual decidiu abrir um guarda-chuva de causas, desde educação à mobilidade urbana. Já Tomás de Lara, da Global Shapers Community Porto Alegre, disse que o mundo está entrando em uma era mais subjetiva, muito mais de criação do que produção. “Tudo está conectado, há um despertar da consciência e a biomética será parte fundamental dos novos conceitos, sendo levada para dentro das empresas”, comentou no painel A Evolução da Conexão com o Consumidor. Segundo ele, uma nova economia, chamada de circular, está se desenhando, ganhando contornos mais humanos, corroborativos, social e sustentável. A ordem, sentenciou, será o compartilhamento.

Nesta linha de mudanças de comportamento, o diretor de Shopper Marketing Brasil da Coca-Cola, Marcelo Barreto, ratificou os novos hábitos adquiridos pelo consumidor. Ao falar sobre O novo perfil do Shopper e impactos nas relações de consumo, ressaltou que são três as tendências de consumo que vão mudar os canais de venda: conveniências, racionalização e experiência. “Os shoppers compram para as próximas quatro horas ou até a manhã do dia seguinte. Com isso, as cestas pequenas estão crescendo em detrimento das grandes e o ticket de compra é menor, porém diário. Também há um deslocamento de público para o ‘atacarejo’, que só em 2013 registrou a abertura de 2 milhões de novas lojas”, relatou, ao dar três dicas para capturar essas novas oportunidades de vendas: diversificar a oferta, facilitar as compras, tornando-as mais intuitiva, e otimizar o sortimento. Já Roberto Martini, da FLAG, mostrou uma perspectiva futura mais dura. “A robotização substituirá o pensamento. Se antes um processo dependia de 40 pessoas, hoje são necessárias duas”, frisou, argumentando que a nova economia, a comunicação em rede, os novos negócios virão das tecnologias daqui para frente.

DESAFIO – Para o curador do 23º Congresso de Marketing, Ricardo Vontobel, que liderou o painel Transformando Tendências em Realidade nos Negócios – reuniu palestrantes em um debate – a sociedade vive um momento de mudanças intensas, rápidas e profundas. “Hoje, a produção somente na forma física não garante vantagem competitiva. Cada vez mais, os aspectos intangíveis de produtos e serviços passarão a fazer parte dos aspectos tangíveis, gerando um ambiente diferenciado de relacionamento com o consumidor”, afirmou. Acrescentou ainda que, com a globalização, se instalou um processo de comoditização, com preços semelhantes. “Precisamos encontrar diferentes maneiras de encantar e mobilizar o consumidor. O desafio é incorporar habilidades de resoluções criativas.” O 23º Congresso de Marketing teve como patrocinadores a Unisinos, Seprorgs, RBS TV e Leão Fuze. Apoiaram o evento Fecomércio-RS, Gerdau, Zero Hora, Morya e Teatro do Bourbon Country

25/09/2014

http://www.advb.com.br/site/noticia/hiperconsumo-esta-condenado-a-morte-diz-o-filosofo-frances-gilles-lipovetsky/

“Estamos cansados de tantas novidades”, afirma o filósofo Gilles Lipovetsky

O  filósofo Gilles Lipovetsky volta a Porto Alegre para falar da sociedade de hiperconsumo em uma palestra no dia 24 de setembro, no 23º Congresso de Marketing da ADVB. Autor de livros como Os Tempos Hipermodernos e O Império do Efêmero: a Moda e seu Destino nas Sociedades Modernas, o francês conversou com ZH por telefone sobre a leveza – assunto do livro que acaba de concluir –, e temas de obras anteriores, como a aceleração do ritmo de vida, o risco da hiperindividualização e a volatilidade eleitoral. Confira, a seguir, trechos da entrevista:

Sobre o que o senhor falará em Porto Alegre?

Vou tratar da sociedade do hiperconsumo. Há, hoje, uma individualização crescente em relação ao consumo, ligada às novas tecnologias – mídias, televisão, telefones, internet – que permite aos indivíduos consumos à la carte. Antes, na sociedade de consumo em massa, tudo era sincronizado. Agora, não somos obrigados a ver os mesmos programas no mesmo momento. Cada um gere seu tempo e seu espaço em função de seu desejo. Igualmente, os grupos sociais exercem menos limites de comportamento, o papel das marcas se destaca nas compras e cresce o fascínio dos jovens pelas marcas. Além disso, o consumo passou a ser mais emocional. Antes, as pessoas compravam para serem valorizadas em seu ambiente, era um consumo de status. Isso existe ainda, e provavelmente sempre existirá, mas, ao mesmo tempo, temos um consumo cada vez mais voltado ao prazer. Quem escuta música pelo iPod, por exemplo, faz um consumo hedonístico, para sentir as coisas. É a dimensão das experiências que ganha importância.


Estamos no caminho de viver em uma bolha, isto é, há um risco de as pessoas terem menos variedade no consumo de cultura e informação?

Sim. É um risco dessa hiperindividualização. As pessoas podem escutar sempre as mesmas músicas, procurar as mesmas informações. Pode ser um encerramento dos indivíduos em seu próprio mundo. Se, de um lado, o hiperconsumismo abre (as possibilidades), também fecha algumas aberturas. As duas dimensões coexistem.
Assim como há o mercado de luxo, há pessoas que buscam experiências diferentes, como o Couchsurfing (viajar hospedando-se na casa de outros), grupos para doar ou compartilhar bens. Como o senhor enxerga este outro fenômeno?

Com as opções múltiplas e também a crise econômica, há novas formas de consumo que aparecem – como compartilhamento, aluguel de bens, comércio de itens de segunda mão. Tudo isso leva alguns a elaborar a hipótese de que o fascínio do consumo estaria recuando. Não penso assim. Acho que, muitas vezes, esses comportamentos são uma expressão do le, porque as pessoas fazem economias em uma área para poder continuar consumindo. Querem, por exemplo, dividir o carro ao viajar para viabilizar essa viagem. Utilizando novas maneiras de consumir, nós continuamos sendo consumidores. A recusa do consumo ocorre, sim, mas em grupos bem menores, militantes, ideólogicos, que creio ser algo relativamente pequeno.
O senhor concluiu há pouco um novo livro? Qual é a sua temática?

Sim. Deve ser lançado em janeiro na França. É sobre a leveza, que se tornou um fenômeno central na sociedade contemporânea. O tema compreende corpo, produtos lights, novas tecnologias, como a nanotecnologia, que busca reduzir e tornar tudo mais leve, o smartphone, o design, a decoração. É um setor econômico extremamente desenvolvido, e isso está apenas começando.
A sensação de que o tempo passa mais rápido e nos atropela não é nova. O romantismo já exprimia esse desejo de escapar deste ritmo intenso. Hoje, há pessoas que buscam meios para desacelerar, como ioga e viagens. A leveza, tema de seu próximo livro, é uma reação a essa tendência de acelerar?

Exatamente. Há, cada vez mais, demanda por novidade. Fazemos mil coisas ao mesmo tempo, mas há também gente que sofre com isso porque tudo vai muito rápido. Temos o sentimento de estarmos cansados de tantas novidades e observamos o cultivo de práticas em busca de uma paz interior, de uma leveza da vida, de ioga, de formas de religiosidade, de massagem, de spa, de relaxamento. Vale observar que esses comportamentos são opostos ao consumismo, mas não completamente. A meditação é muito praticada em Nova York e em Londres por pessoas que têm ritmos de vida terríveis, e a meditação é uma maneira de repor as forças para poder continuar nesse sistema. Não é um modelo alternativo. Está a serviço da performance.
A aceleração vai continuar?

Acho que sim. Vemos isso com as novas tecnologias e a informática. Agora que temos o 4G, quem tem 3G reclama que não pode baixar filmes. Vivemos cada vez mais rápido. Há cada vez mais ofertas e tecnologias que permitem ir rapidamente a qualquer lugar. Não sei como isso pode diminuir. A aceleração ganha cada vez mais setores de nossa existência. Isso gera problemas, pois nem tudo pode ir mais rápido. Na educação, por exemplo, não podemos ir mais rápido. Aquisição de conhecimento demanda paciência. No futuro, acho que, além da aceleração, teremos todo um conjunto de técnicas que nos permitam aceitá-la.
Em A Era do Vazio (1983), o senhor escreveu que Narciso era o símbolo da revolução individualista. Àquela época, poderia imaginar que haveria hoje quem publica fotos de si mesmo?

O selfie é um exemplo desse individualismo. É um prolongamento desse narcisismo. Contudo, é um individualismo paradoxal, pois ele está em uma busca incessante da aprovação dos outros. Faço uma foto, coloco no Facebook, mas aguardo a reação dos outros. É um Narciso incompleto. Posso me amar, mas me amo mais ainda se os outros me amam, se dizem que sou bonito, que a foto é interessante. As pessoas tiram selfies para ter uma recompensa simbólica, da parte dos outros. Com o Facebook, cada um é um publicitário de si mesmo. Cada um faz seu próprio marketing. É um marketing narcisístico.

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/09/estamos-cansados-de-tantas-novidades-afirma-o-filosofo-gilles-lipovetsky-4603364.html