Michel Maffesoli na Lusófona do Porto

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Com uma forte ligação a Portugal e ao Brasil, o sociólogo é reconhecido pelo outro olhar que traz à sociologia e pela sua perspetiva polémica sobre os assuntos que aborda.

Investigador titular da Sorbonne em Paris, incidiu sobre as questões controversas da pós-modernidade, referindo que há um desencontro entre as pessoas e as instituições, isto é, que as pessoas não se identificam com a instituição em que se inserem. Para tal, sugere que haja um ajustamento de modo a definir as relações.

O termo progressismo está, na ótica do professor, em fase de saturação, como tal, os humanos devem encontrar as palavras para dizer o que vivem. Assim, deve haver um ingresso ao invés de um progresso; uma energia interior vinda do espírito, uma ecosofia, propõe.

A noção de tribo urbana, estudada por Michel Maffesoli, foi mencionada pelo mesmo com menção aos sites, blogs, redes sociais e as suas implicações nas representações coletivas a par da sociabilidade e de uma crescente lógica comunitária que atravessa as sociedades ocidentais.

As pequenas tribos, microcomunidades, como explicita o próprio, estão mais presentes e isso pode verificar-se não só nos movimentos revolucionários como a Primavera Árabe e os Indignados de Madrid, mas também nas seitas cristãs (pequenas igrejas) que estão em comunhão umas com as outras, em sintonia.

Passando pelo que é real até ao surrealismo, o sociólogo enalteceu a importância do mito pós-moderno, da cibercultura que está a passar por uma nova fase: a remitologização do mundo.

A referência a autores como Émile Durkheim, Max Weber, Georg Simmel, Thomas Kuhn, entre outros, esteve presente no decurso da palestra do pensador.

O conferencista refletiu por fim sobre a possibilidade do reencantamento do mundo e sobre o saber coletivo, dando o exemplo da wikipédia, que cada vez mais liga o individuo ao coletivo, criando uma nova dimensão: a meso cósmica, em que a técnica liga o microcosmos (saber individuo) para o macrocosmos (saber coletivo).

A palestra finalizou com espaço para debate entre o público presente e o sociólogo francês.

Filipa Alves – Redação LOC

http://loc.grupolusofona.pt/index.php/noticias/noticias-2014/michel-maffesoli-na-lusofona-do-porto.html

Brasil tem três chaves da pós-modernidade, diz Maffesoli

Para o sociólogo francês, professor da Universidade de Sorbonne, criatividade, temporalidade focada no presente e sentido de comunidade são características nacionais

por Isabela Vieira – Agência Brasil   publicado às 08:43 de 11/11/2014, modificado às 08:43 de 11/11/2014

Ao reafirmar ontem (10) que o Brasil é um “laboratório da pós-modernidade”, o sociólogo francês Michel Maffesoli, professor da Universidade de Sorbonne, destacou que o país tem três das cinco chaves para compreender a sociedade contemporânea e acelerar o seu crescimento econômico. Ele participou de palestra na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ).

O sociólogo francês Michel Maffesoli. Foto: Jérôme Choain/Flickr (2011)

A primeira chave, segundo Maffesoli, é a criatividade que, na sua avaliação, é uma das marcas da juventude brasileira. “É um momento que, no sentido simples, há uma efervescência, um formigamento”. O sociólogo, que é observador atento dos movimentos envolvendo os jovens, entende que essa criatividade é uma das marcas do novo “valor do trabalho” (uma das chaves de sua teoria), que precisa ser apropriado por empresas e gestores.

Outro aspecto apontado pelo sociólogo é a “temporalidade” focada no presente, que atribui ao tempo todas as transformações, em contraposição ao futuro, chave da modernidade. “Há energia intensa no ar [no Brasil, que deve ser aproveitada]”, disse.

A terceira chave, de acordo com Maffesoli, é aquela que contrapõe a ideia de individualismo. Para o sociólogo, na contemporaneidade, as pessoas se juntam cada vez mais em tribos, para desfrutar das experiências. “Vejo nos meus alunos brasileiros: não é mais o eu, é o nós; a comunidade passa a ser mais importante que o indivíduo, que era a marca moderna”.

As demais chaves são usadas por Maffesoli para explicar as transformações da contemporaneidade. Ele cita o “utilitarismo”, por meio da estética compartilhada. “Está emergindo a estetização da existência, das emoções por meio da música e da arte. Tudo é feito para se compartilhar e vibrar junto, como os shows esportivos, musicais e religiosos”. Por fim, a saturação da sistematização da razão, o “racionalismo”, a necessidade atual de “mobilizar afetos”.

Durante a palestra, o sociólogo também destacou que o trabalho e o dinheiro, um dos pilares da sociedade moderna, estão sendo substituídos por produtos da criatividade, como arte e cultura, com potencial muito maior de mobilização.

Como exemplo dessa teoria, ele mencionou uma pesquisa encomendada pela equivalente à Federação das Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp) da França, que concluiu que “os salários não são mais o grande retentor de talentos. As pessoas querem trabalhar em empresas cool [legais], que mantenham os trabalhadores com políticas de bem-estar”.

Maffesoli também abordou o atual modelo educacional, classificado por ele como “podre” por ser vertical. O ideal, sugere,  seria uma forma de iniciação, de acompanhamento do aprendiz. “O jeito pós-moderno é horizontal”, disse. “De fato, com a tecnologia, são os fóruns de discussão, as redes sociais, como o Facebook que recusam o poder vertical, mas precisam de uma autoridade [o mediador, o administrador] a vingar”.

Perguntado sobre o livro do professor da Escola de Economia de Paris, Thomas Piketty, O Capital no Século 21, que fala da disparidade da concentração de renda, Maffesoli disse que não teve tempo de lê-lo. Mas que o aumento das desigualdades, no contexto atual, resultado do acirramento das diferenças, da concentração de pessoas em tribos, já era esperado. “A igualdade sempre foi um mito na modernidade”, reforçou o intelectual da pós-modernidade.

http://www.cidadenova.org.br/editorial/informa/934-brasil_tem_tres_chaves_da_pos_modernidade

Para Maffesoli, crise tem origem na saturação dos valores da Modernidade

Para sociólogo francês, Brasil é um laboratório pós-moderno ao congregar valores como criatividade, presente e comunidade

por Clarice Spitz

sociólogo francês Michel Maffesoli, um dos maiores teóricos da Pós-Modernidade, diz não ver a economia na origem da crise mundial. Antes, afirma o professor da Sorbonne, diretor do Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano e do Centro de Pesquisas sobre o Imaginário (M.S.H.), que veio ao Brasil para uma série de conferências, a crise está, na base, na saturação de valores da Modernidade, como individualismo, racionalidade, futuro como progresso, trabalho como valor e utilitarismo.

Michel Maffesoli, sociólogo francês, não vê a economia na origem da crise mundial. Professor veio ao Brasil para série de conferências – Divulgação/Didier Goupy / Divulgação/Didier Goupy

Para uma plateia formada por acadêmicos, estudantes e empresários em conferência nesta segunda-feira na Associação Comercial do Rio em evento organizado em conjunto com o Instituto Palavra Aberta e com o Ibmec, Maffesoli diz ver no Brasil um laboratório da Pós-Modernidade, por abrigar na sua cultura valores como criatividade, presente e comunidade. Ele afirma que a sociedade de maneira geral vive um momento paradoxal em que conceitos modernos e pós-modernos coexistem.

— A palavra democracia não quer dizer mais nada, a liberdade não está mais na pauta do dia. O conceito de Estado-Nação dá lugar ao localismo, ao mosaico de ideias. Não é mais o materialismo que vai predominar, a dimensão somente econômica não vai predominar — afirma o professor, que orientou vários estudantes brasileiros na França.

Com base nas novas tecnologias, no conceito de horizontalidade da internet, na percepção das gerações mais jovens, Maffesoli baseia sua série de hipóteses. Agora, segundo ele, não existe mais o indivíduo, mas pessoas múltiplas. Não se está preso a uma identidade sexual ou profissional, pode-se ser várias coisas diferentes e não excludentes. O presente se contrapõe à noção de futuro. As coisas inúteis também são importantes, haja vista que a Google quer que seus funcionários gastem parte do tempo de seu dia pensando em outras coisas, que não apenas o trabalho.

— O fim do mundo não é o fim do mundo, mas a sua metamorfose. Nós vimos por muito tempo a luz de uma estrela morta — disse, ao afirmar que ainda vivemos com os valores do século XIX.

Autor de diversos livros, ele lança no Brasil ‘Homo Eroticus – As Comunidades Emocionais’, pela editora Forense. Ao ser indagado, diz que não comenta o livro do colega Thomas Piketty “O Capital no século XIX” porque não o leu. Grande demais, disse. Ele diz, no entanto, que o igualitarismo, democracia, liberdade e educação são temas que estão em crise.

— A democracia moderna se baseia no hierárquico, mas agora há o retorno das diferenças. Podemos pensar num ajuste das desigualdades, mas não no fim das desigualdades. Estamos em um período em que a crueldade vai retornar. A Modernidade foi essencialmente dramática, mas havia uma solução, agora vamos nos virar com o que dá prá ser. Não se resolve tudo, mas, ao mesmo tempo, há vida com sombra e luz — afirma

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/economia/para-maffesoli-crise-tem-origem-na-saturacao-dos-valores-da-modernidade-14522523#ixzz3MeemtIFE

Michel Maffesoli: ‘O tripé pós-moderno é criação, razão sensível e progressividade’

Os tempos atuais pertencem à razão sensível, às emoções e aos afetos públicos, e o Brasil está na vanguarda nas experimentações das novas realidades sociais deste início de século. A democracia representativa é um sistema fracassado, e deve-se atentar para as inovadoras formas do fazer político e de gestão do bem comum, favorecidas pela horizontalidade promovida pelas novas tecnologias. Estas são algumas das teses desenvolvidas ao longo dos anos pelo sociólogo francês Michel Maffesoli, e aprofundadas em seu mais recente ensaio, “Homo eroticus — comunhões emocionais” (Editora Forense Universitária, 288 páginas, R$ 69).

Professor de Sociologia na Sorbonne, diretor do Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano e do Centro de Pesquisas sobre o Imaginário (M.S.H.), Maffesoli costuma definir o Brasil como um “laboratório da pós-modernidade”. Neste mês de novembro, o original pensador fará uma série de conferências no país, nas quais explorará os temas contemporâneos caros às suas pesquisas do cotidiano da época pós-moderna: no dia 9, em Búzios, no encerramento do XXII Congresso da Associação Junguiana do Brasil; dia 10, no Rio, às 10h, na Associação Comercial do Rio de Janeiro, e às 20h, no Midrash Centro Cultural; dia 11, em Brasília, às 14h20m, na abertura do seminário internacional “Sociedade contemporânea: a imagem, o simbólico e o sensível”, na Universidade de Brasília (UnB), e dia 12, às 11h, em Niterói, na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Segundo o senhor, o “homo eroticus” seja talvez o filho indigno da modernidade, mas é o filho legítimo da pós-modernidade. Quem é este homo eroticus e como ele se inscreve no mundo de hoje?

Nossa época vive uma mudança de paradigma, de mudança de sistema de valores. Traduzo isso pela metáfora da passagem do “homo economicus” ao “homo eroticus”. Não se trata, obviamente, de um erotismo no sentido realista do termo, mas sobretudo de um significado “erótico social”. O “homo economicus” encarnava os últimos séculos, centrados na produção e no crescimento econômico, na mercantilização das trocas, toda uma vida voltada para a acumulação do patrimônio. Já o indivíduo pós-moderno não se define por seu status social ou profissional, seu nível econômico e de formação, mas essencialmente por sua relação com o outro. É este relacionismo que constitui a característica essencial do “homo eroticus”: eu vivo e sinto pelo e graças ao outro.

De que forma a técnica e seu desenvolvimento favorecem mais hoje a emoção, a sensibilidade e o retorno aos afetos à praça pública, como o senhor assinala, do que o racionalismo abstrato?

Se retomarmos as análises de Max Weber, a técnica e a racionalização teriam levado a um desencantamento do mundo. É o que Jean-Paul Sartre chamava de serialização. A organização da indústria taylorizada e da administração burocrática são os exemplos mais emblemáticos. Esta tecnicização, este produtivismo, esta ideologia do progresso culminou nas devastações do mundo que se conhece, gulags e genocídios, catástrofes ecológicas etc. Mas a técnica não determina os usos sociais, são os modos de vida e o ambiente da época que ditam o uso das tecnologias. E, paradoxalmente, as novas tecnologias se tornaram auxiliares à expressão de novas formas de viver. A expressão imediata das emoções, a comunhão de sentimentos e de afetos são lançados pelo uso das redes sociais. Internet é uma mídia adaptada à nossa época relativista e relacionista, presenteista e hedonista. As diversas rebeliões juvenis no Brasil em 2013 são uma excelente ilustração de um “net-ativismo” aliando as paixões e o desenvolvimento tecnológico.

Há alguns anos o senhor define o Brasil como “um laboratório da pós-modernidade”, embora assinale que os brasileiros não têm consciência disso. Poderia explicar?

O tripé moderno era trabalho, racionalismo, progressismo. O tripé pós-moderno é criação ou criatividade, razão sensível e progressividade. Estes são, certamente, os três elementos que são característicos da sociedade brasileira contemporânea. Mas no Brasil, como na Europa, é preciso distinguir entre a opinião publicada, aquela dos jornalistas, universitários, políticos, dirigentes, dos que têm o poder de dizer e de fazer a opinião pública, e aquela que se exprime pelos comportamentos e rituais da vida cotidiana. Certamente, o Brasil das elites não é consciente deste verdadeiro potencial. Que não é tanto econômico, em todo caso no sentido do produtivismo e do crescimento a qualquer custo, quanto antropológico e cultural. As elites brasileiras, como as elites do mundo inteiro, pensam em termos de poder, de rentabilidade, de controle da natureza. É uma concepção do mundo que só pode levar a catástrofes e ao desencantamento que se conhecem. Sempre me pareceu que existia no Brasil uma forma de consciência popular de inutilidade desse economicismo e uma capacidade coletiva de encontrar sem cessar novas formas de expressão das emoções coletivas, de trocas afetivas, enfim, de solidariedades comunitárias. As grandes figuras de reunião conhecidas internacionalmente, que são o futebol, a música, a dança, são um testemunho. Mas também o são uma quantidade de comportamentos coletivos cotidianos, como as reuniões dominicais nos bairros ou nas praias, as formas de contestação contemporâneas ligadas na maioria das vezes a reivindicações de mobilidade e, em geral, ao espetáculo das ruas nas cidades brasileiras.

O senhor nunca votou na vida, não acredita no poder do voto nem no discurso dos valores da República. Neste contexto, como o senhor acompanhou as recentes eleições no Brasil?

Parece-me que a democracia representativa, este sistema no qual os eleitores delegam o poder de decisão das instituições e dos modos de vida em comum a especialistas não é mais pertinente. O alto índice de abstenção nos países em que o voto não é obrigatório testemunha uma certa versatilidade dos eleitores. Os indivíduos não se sentem mais representados, e então não consideram mais que o Estado represente o bem comum, e as decisões dos representantes do Estado, o interesse geral. Mas há diferentes formas possíveis de gestão e de organização da coisa pública, a res publica. Me parece que estamos experimentando estas novas formas de gestão do bem comum, que não passa mais pela abstração da delegação nacional, mas pela multiplicação das experiências locais. Os fenômenos de descentralização, de autonomia dos Estados, de desenvolvimento das ONGs, mas também dos movimentos informais são um testemunho disso. As recentes revoltas no Brasil, que são mais a afirmação de um sentimento e de emoção coletivos do que de reivindicações materiais e individuais são um exemplo. É preciso estar atento, porque na falta de se encontrar modos de expressão adequados para essas experiências e paixões comuns, elas podem degenerar em tumultos. A aculturação das novas tecnologias e dos novos modos de comunicação possui um potencial de inovação social que constitui uma das riquezas do Brasil. É por isso que penso que este país é um dos laboratórios da pós-modernidade, sinergia do arcaico e das novas tecnologias.

O senhor aprecia a fórmula de Leonardo da Vinci, “ostinato rigore”: pensar com um rigor obstinado o que é e não o que se gostaria que fosse. É uma fórmula pouco utilizada hoje na sua opinião?

Da Vinci era artista e artesão, quer dizer que agia segundo um empirismo bastante formalizado. É este vai e vem inteligente entre a teoria e a observação que procurei promover, me inscrevendo na corrente sociológica “compreensiva”, de Max Weber e de George Simmel, e também de Gilbert Durand. Sempre disse aos meus estudantes brasileiros que é importante ir para a biblioteca e para a rua. Na verdade, é importante para os pensadores se alimentar da tradição, do tesouro daqueles que pensaram e escreveram antes deles, e ao mesmo tempo viver a experiência da vida cotidiana. Esta postura está, efetivamente, bastante distanciada daquela de muitos intelectuais que se tornaram um tipo de “engenheiros do social”. Eles substituíram os livros de literatura, de filosofia e de história pela leitura de estatísticas e de revistas e pela observação emergida das mensagens políticas. Desta forma, não é mais o mundo tal como é que tentam compreender, mas o mundo como eles gostariam que fosse que eles promovem. Procurei ao longo de minha carreira universitária e por meio da minha obra desenvolver um pensamento que não seja agressivo e dogmático, mas terno e relativista. A reabilitação do cotidiano, do imaginário, dos sonhos e da criação como primeiro terreno da existência coletiva é a alavanca. Neste sentido, as numerosas trocas que pude ter com colegas brasileiros e as viagens que pude fazer neste país fertilizaram meu pensamento.

por Fernando Eichemberg08/11/2014 6:55

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Retrato de uma juventude

O retrato, aliás, o autorretrato é o seguinte: de manhã despertamos com o celular, zapeamos as notícias no tablet, conferimos o trânsito na rádio, tarde adentro ziguezagueamos no trabalho entre abas e abas repletas de imagens, letras e links, à noite assistimos à TV para pensar na vida – e às vezes para não pensar –, marcamos um bar com os amigos no Facebook, narramos o evento no Twitter e fotografamos o quão divertido está o encontro no Instagram. Socializamos o tempo todo, compartilhamos o tempo todo, curtimos o tempo todo. Curtimos?

No fim de abril, o diretor londrino Gary Turk postou seu “manifesto” Look Up, que já soma mais de 37 milhões de visualizações – ironicamente, uma crítica à midiatização da vida se tornou um hit no YouTube. Outro hit, já na casa dos 42 milhões de views desde agosto, foi protagonizado pela atriz Charlene deGuzman. No vídeo I Forgot My Phone, a americana é ignorada por todos ao seu redor, intensamente vidrados nos “likes” de seus smartphones, o que levou o jornalista Nick Bilton a publicar no New York Times uma pensata atilada à nossa sociedade: “Assistir ao vídeo de DeGuzman é desconfortável. É um golpe direto na nossa cultura obcecada com smartphones, cutucando-nos sobre nosso vício naquela pequena tela e sugerindo que talvez a vida possa ser mais bem direcionada quando é vivida – em vez de visualizada.”

“Dizia Hegel, o jornal é a ‘oração’ matinal do homem moderno. As redes sociais serão a oração do homem pós-moderno”, considera o sociólogo francês Michel Maffesoli, diretor do Centre d’Études sur l’Actuel et le Quotidien (CEAQ) da Université Paris Descartes – Sorbonne. Autor de O Ritmo da Vida (2007), O Tempo das Tribos (2006) e Sobre o Nomadismo: Vagabundagens Pós-modernas (2001), entre outros, o teórico da pós-modernidade é um dos principais pensadores debruçados sobre questões culturais e ciberculturais da atualidade. Vê nos selfies mais uma expressão contemporânea da iconofilia, essa adoração imagética num looping rumo ao infinito como o que vimos nos últimos dias: Macaulay Culkin vestindo uma camiseta de Ryan Gosling, vestindo uma camiseta de Macaulay Culkin e assim por diante.

 

Mas Maffesoli, aos 69 anos, é otimista sobre determinados aspectos da internet. Na sua visão, o avanço tecnológico não nos direciona ao antissocial. “Tende, ao contrário, a consolidar uma mise en relation. E uma das pistas que será preciso estudar sobre o desenvolvimento tecnológico próprio às mídias sociais é a emergência de novas formas de generosidade e de solidariedade”, diz.

Nesta entrevista ao Aliás, às vésperas do Dia Mundial da Internet (celebrado no dia 17 de maio), o intelectual comenta as relações entre os “nativos digitais” nessas tribos contemporâneas. Pondera que, evidentemente, não estamos mostrando quem somos nas redes sociais – mas quem desejamos ser aos olhos dos outros. “Qual é o status dessas determinadas personalidades? De fato, elas não são mais consubstanciáveis a um indivíduo, mas representam uma máscara – a persona – de quem escolhe se posicionar nessa ou naquela rede social.”

Para Maffesoli, essas relações tribais, especialmente entre os jovens, levam a um outro quadro: quer-se tanto viver em sociedade que os jovens se preocupam mais em se acomodar ao mundo – e não a querer transformá-lo.

Qual é o papel das mídias sociais na pós-modernidade?

Podemos dizer que, na pós-modernidade, as mídias estão se tornando mais e mais importantes, especialmente as chamadas “mídias sociais”. Lembremos Hegel, que dizia no século 19: a leitura do jornal é a oração do homem moderno. Podemos pensar que as mídias interativas serão a oração do homem pós-moderno. Contrariamente às críticas tradicionais, porém, acredito que essas mídias favorecem a mediação, isto é, a relação e a inter-relação entre as pessoas. Se a modernidade, particularmente no seu momento final, viu o triunfo da “multidão solitária”, a pós-modernidade nascente verá se desenvolver uma multiplicidade de novas tribos urbanas, cuja essência é o relacionismo.

Com os avanços tecnológicos, nós estamos observando a emergência de uma geração ‘selfie’?

Certamente o selfie está no ar. Entretanto, na minha opinião, essa mise en scène de si mesmo não é, como se costuma dizer, o símbolo de um aprisionamento de si. Nessa perspectiva, discordo dos teóricos que abordam abusivamente o narcisismo. Prefiro dizer que os selfies compõem a forma contemporânea da iconofilia. Assim, podemos indicar um narcisismo tribal. Isso quer dizer que, ao difundir essas fotografias, nós pretendemos nos posicionar em relação aos outros da tribo. Se traçarmos um paralelo com uma imagem religiosa, o selfie tem uma finalidade sacramental, que torna visível a força invisível do grupo. O que me liga aos outros da minha tribo? Nós nos definimos sempre em relação ao outro. Assim, o fenômeno tribal repousa essencialmente no compartilhamento de um gosto (sexual, musical, religioso, esportivo, etc.). É preciso dizer que essa “partilha” cresce exponencialmente com o desenvolvimento tecnológico.

Nas mídias sociais, publicamos ‘selfies’ sempre felizes. Somos tão felizes? Ou filtramos nossos retratos justamente para esconder nossas angústias atuais?

De fato, as mídias sociais (Facebook, Instagram, Twitter, etc.) tendem a dar uma figuração feliz de nós mesmos. Certamente não estamos sempre felizes. Mas há aí um movimento de pudor: nós tendemos a dar à tribo, ou às diversas tribos às quais pertencemos, imagens reconfortantes de nós mesmos. No entanto, historicamente, é preciso lembrar que os quadros e as esculturas, as imagens próprias a todas as civilizações destacaram essencialmente essa figuração de felicidade. Os últimos livros de Michel Foucault (História da Sexualidade: O Cuidado de Si e História da Sexualidade: O Uso dos Prazeres) mostram que isso marcou a Grécia e a Roma antiga. Foi o caso também na Idade Média. Para resumir em uma expressão: isso traduz um “pudor antropológico”, que é um elemento essencial do viver em sociedade.

Há quem argumente que a tecnologia está nos tornando antissociais. Temos muitos amigos no Facebook, mas estamos mais solitários?

Contrariamente aos críticos que sublinham o isolamento crescente, que seria característico das megalópoles pós-modernas, considero que a multidão solitária – na minha expressão, a solidão gregária – é uma das especificidades da modernidade decadente. Paradoxalmente, o desenvolvimento tecnológico não nos direciona ao antissocial. Tende, ao contrário, a consolidar essa mise en relation – no seu sentido forte e etimológico, o comércio das ideias, dos bens, dos afetos. É evidente que o termo “amigo” particularmente no Facebook não pode ser reduzido à concepção de amizade clássica, feita de relações intensas e recíprocas. Entretanto, a multiplicidade de amigos nos permite saber, se necessário for, onde e com quem manter relações sociais. E uma das pistas que será preciso estudar sobre o desenvolvimento tecnológico próprio às mídias sociais é a emergência de novas formas de generosidade e de solidariedade, nas quais os uns e os outros são causa e efeito de uma “horizontalização societal”.

Divulgado nos últimos dias, um estudo da OMS mostrou que a depressão é a principal enfermidade entre os jovens. A vida virtual e a fragilidade das relações ‘tête-à-tête’ teriam impacto nessa geração? 

É preciso ter bastante cuidado com os diversos estudos institucionais focados principalmente no campo da saúde, que tendem a dizer que a depressão é a doença específica das jovens gerações. Valeria questionar se essa depressão não é característica das gerações no poder, quer dizer, das próprias gerações que comandam esses estudos e que talvez, num processo de compensação como destacou o psicanalista Carl Gustav Jung, tendem a projetar ao exterior o mal-estar que nós mesmos sofremos.

Há tempo para contemplação do mundo atualmente?

No livro A Contemplação do Mundo, tento demonstrar que a tendência geral da pós-modernidade, perceptível particularmente nas jovens gerações, consiste menos em querer mudar o mundo – e mais em se acomodar ao mundo. Adaptar-se, ajustar-se a ele. Isso pode nos conduzir a evitar a devastação, cujos “saques” ecológicos são exemplos cotidianos. Com o sociólogo italiano Massimo De Felice, no Centro de Pesquisa Atopos da Universidade de São Paulo (USP), tentamos justamente desenvolver pesquisas sobre essa “ecosofia”. Acredito que é assim que precisamos compreender o “ritmo da vida”, isto é, pensar a existência a partir de um ponto fixo – a natureza, o território –, todos os elementos que fazem com que o ambiente social dependa do ambiente natural. Se a modernidade foi um pouco paranoica, levando à dominação e à devastação do mundo, na pós-modernidade uma nova sabedoria está em gestação.

Por fim, a tecnologia é um meio? Ou uma mensagem?

É habitual considerar que, com a prevalência de um racionalismo exacerbado, a tecnologia moderna contribuiu para um desencantamento do mundo. No entanto, na minha opinião, é paradoxal observar que, atualmente, esse desenvolvimento tecnológico, especialmente nos seus usos sociais, nos direcionam a um reencantamento do mundo. Nessa perspectiva, as mídias sociais são ao mesmo tempo um meio e uma mensagem, que confortam a vida em sociedade. Se a modernidade se firmou a partir de um princípio individualista, a tecnologia pós-moderna abriga um relacionismo galopante – uma relação, como frisei, entre nós e os outros.

Michel Maffesoli é sociólogo, teórico da pós-modernidade e autor de ‘O tempo da tribos’, entre outros livros 

Juliana Sayuri – O Estado de S. Paulo

17 de maio de 2014 | 16h 00 –

http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,retrato-de-uma-juventude,1167792,0.htm

 - INDEPENDENT.CO.UK

Questão Pós

O primeiro palestrante do evento A “Questão Pós” nas Ciências Humanas – Pós-estruturalismo, Pós-modernidade e Pós-colonialidade foi Michel Maffesoli. O francês, vinculado à Universidade de Paris V, é conhecido pela popularização do conceito de tribo urbana e por construir uma obra em torno da ligação social comunitária nas sociedades pós-modernas.

O palestrante Michel Maffesoli abordou que o dinâmico tende a se tornar mortifico, por isso o tema do pós busca que o pensamento possa integrar a vida

O palestrante Michel Maffesoli abordou que o dinâmico tende a se tornar mortifico, por isso o tema do pós busca que o pensamento possa integrar a vida

Maffesoli iniciou sua exposição falando que o tema proposto para a conferência é muito interessante, já que um problema geral da natureza humana é entender as questões do pós. “É interessante observar que o que inicialmente é revolucionário, aos poucos vai se tornando esclerosado”, declarou. Para o sociólogo, o que é dinâmico tende a se tornar mortifico, por isso o tema do pós busca que o pensamento possa integrar a vida. “Há momentos em que o pensamento tende a enrijecer-se, pensar no pós é estar perto da vida, fugir da clausura”, alertou.

Segundo o palestrante, a vida é um processo de metamorfose, transformação de dinâmica e movimento. “Só podemos aprender uma estrutura se apreendemos um movimento, uma cultura, nada é estático”, afirmou. Durante sua fala, Maffesoli criticou a linearidade de pensamento e destacou o mito do progresso. “O século XIX é o século da modernidade, na minha opinião”, frisou.

O sociólogo francês foi o primeiro do ciclo de conferências. O evento receberá até outubro importantes pesquisadores nacionais e internacionais

O sociólogo francês foi o primeiro do ciclo de conferências. O evento receberá até outubro importantes pesquisadores nacionais e internacionais

Para o sociólogo, o fim de um mundo não é o fim do mundo. “Esse é o meu trabalho, há trinta anos eu tento mostrar o processo de sucessão das eras. Podemos dizer que existem épocas, que podem abrir e fechar, e isso é importante para entender as questões do pós. Um ciclo dura um tempo, chega ao seu apogeu e dá lugar a outro”, explicou.

Maffesoli abordou o conceito de saturação e afirmou que a pós-modernidade é uma maneira provisória de traduzir a decadência e também o surgimento de algo novo. Lembrou que a questão do progressismo é entendida como uma flecha por alguns e como um ciclo circular por outros. O pesquisador propõe entender o progresso como um modelo espiral, que reconhece que nada é eterno, mas que há uma continuidade no cerne, que é a vida.

Maffesoli foi acompanhado pelo coordenador do evento Carlos Gadea

Maffesoli foi acompanhado pelo coordenador do evento Carlos Gadea

O conferencista ainda falou da teoria, em que o conhecimento é puro e do epistemológico onde o conhecimento é colocado em prática. “Não podemos entender a vida se não entendemos como se aplica sua representação”, concluiu

http://www.juonline.com.br/index.php/universidade/09.04.2014/questao-de-pos/30a5