Uso de smartphones por brasileiros chega a 76 milhões

Número de pessoas que utilizam aparelhos de celular com acesso à internet aumentou em um milhão de pessoas no por mês se comparado ao terceiro trimestre de 2014

Por Bianca Ribeiro | 24/11/2015

O número de pessoas que utilizam o smartphone com acesso à internet no Brasil chegou a 76,1 milhões no terceiro trimestre de 2015, tendo um aumento de mais de um milhão de pessoas por mês, segundo pesquisa realizada pela Nielsen Ibope.

O estudo também registrou que das 76,1 milhões de pessoas que utilizam celular com internet, metade já tem o aparelho há mais de um ano e 5% delas, pretende trocar de celular no prazo de um mês, enquanto 12% quer um aparelho novo nos próximos três meses.

Quando consultados sobre o horário em que mais utilizam seus smartphones, os brasileiros relataram que 63% tende a usar durante a noite, das 20h às 22h, seguidos do horário de pós- trabalho, por volta das 18h. Outro momento em que os usuários mais acessam o aparelho é durante o almoço (53%).

Mesmo com o crescente número de pessoas que utilizam smartphones, o acesso à internet pelo computador domiciliar também aumentou nos últimos anos, chegando a 95,6 milhões de brasileiros. Em setembro de 2000, apenas 9,8 milhões de pessoas moravam em residências com computador conectado à rede. Os maiores saltos ocorreram em 2004, quando 19,3 milhões de brasileiros começaram a usar mais os sites sociais e, em 2007, quando o acesso se popularizou com o aumento da renda, chegando a 30,1 milhões.

Pesquisa, Nielsen, smartphones

http://www.mundodomarketing.com.br/ultimas-noticias/35022/uso-de-smartphones-por-brasileiros-chega-a-76-milhoes.html

5 comportamentos do jovem consumidor carioca

Durante muitos anos, os jovens foram considerados irresponsáveis ou rebeldes por uma fatia da sociedade. A idade era associada à fase de descobertas e à imaturidade. No Rio de Janeiro, inclusive, o público com até 25 anos era representado por marcas que exploravam o jeitinho carioca para conquistar a adesão dessa parcela da população. O retrato atual, no entanto, mostra que esse pensamento está ultrapassado e que o grupo está mais consciente de si, do mundo e dos mercados de consumo.

A malandragem comumente associada a quem vive na cidade já não é mais interpretada com bons olhos e o modelo de lifestyle proposto pelas empresas, baseado apenas na praia, também não é mais identificado por essa geração. Segundo a pesquisa Rolé Jovem, realizada pela agência República, os jovens estão cientes do que acontece na capital e já agem visando mudar os pontos negativos que encontram, entre eles a centralização de opções de lazer e cultura na Zona Sul. Esse público reivindica não apenas a quebra de barreiras geográficas, como também as simbólicas.

Durante o estudo, foram identificados cinco drivers de comportamentos que se manifestam em cada uma das esferas, tais como educação, trabalho, relacionamento, dinheiro/consumo e política, em pessoas com idades entre 14 a 34 anos. “Esses pontos mostram que eles se preocupam não apenas com o superficial. Em relação à carreira, por exemplo, querem um propósito que não seja apenas individual. O dinheiro não é mais um fator decisivo. Tudo tem que girar em torno da realidade dele”, conta André Mota, Sócio e Head de Estratégia da República, em entrevista ao Mundo do Marketing.

Educação e Trabalho
Um dos fatores que melhor representam os jovens é a transitoriedade e o imediatismo. De acordo com a pesquisa, o que importa para eles é o presente. Esse grupo é o mais ansioso para alcançar cargos altos em empresas, porque se inspiram em empreendedores de sucesso. Muitos optam por abrir negócios próprios com o objetivo de mudar o atual pensamento corporativo, considerado limitado por eles.

Isso porque essa turma é a que mais busca conciliar a vida pessoal com a profissional. Cabe às companhias tentar encontrar a forma de não perder um empregado por conta de uma rotina engessada. “O trabalho não é mais visto como uma obrigação e, sim, como um meio de realização e desenvolvimento pessoal. O jovem se permite acumular experiência em diversas áreas e, por meio dessa soma, desenvolver o poder de realizar novas conexões. A ocupação tem que coincidir com o que ele quer para a vida dele e, se não encontrar, ele mesmo irá procurar uma solução”, diz André.

Além disso, na educação, os conteúdos relevantes devem estar presentes no seu dia a dia. “Aprender um novo idioma, por exemplo, não é interessante apenas para se destacar no ambiente de trabalho, mas principalmente para se relacionar com outras pessoas e se inserir no mundo globalizado. Ele não quer estudar apenas para colocar no currículo. O princípio é como aquilo vai proporcionar uma experiência para ele”, afirma André Mota.

Dinheiro e Consumo
O acesso constante à internet e a absorção de informações a todo momento trouxe uma celeridade também nas formas de consumo. Os recursos financeiros são cada vez mais empregados na aquisição de momentos relevantes e capazes de agregar algo a ele. “Esse consumidor busca novidade e cobra isso. Até pouco tempo atrás, as marcas faziam uma campanha por coleção. Hoje, já notamos que é preciso trazer novidades o tempo inteiro. Optamos por fazer minicampanhas mensais, com novo material gráfico. Não podemos nos limitar a passar uma estação inteira com o mesmo mostruário”, conta Natalia Fidalgo, Coordenadora de Marketing da DressTo, em entrevista ao Mundo do Marketing.

As experiências no momento da compra também foram reforçadas, e a confecção voltada para o público jovem passou a incluir referências a situações vividas e ao gosto do carioca nas lojas. “Fizemos parcerias com blocos de marchinhas e, no carnaval, eles ficam tocando na vitrine da unidade de Ipanema. Levamos algo que eles procuram, como a festa de rua, para dentro do ponto de venda. A banda fica na vitrine virada para dentro da loja, o que faz com que eles entrem e sintam um pouco da alegria carioca que também temos”, diz a Coordenadora de Marketing da DressTo.

A aproximação, no entanto, não é o único fator decisivo no momento da compra. A experiência de aquisição do produto precisa vir carregada de outros atributos, que não estejam atrelados ao consumismo. Aqueles que já possuem renda própria são os mais responsáveis com o orçamento pessoal, mas os mais novos ainda buscam marcas como identificação de personalidade. O ato de consumir se torna uma maneira de enxergar a vida e de demonstrar seu pensamento.

Preocupação social e política
Nos hábitos de compra, cresce a preocupação com os impactos dos produtos no mundo. A Kipling é uma das marcas que mira nos consumidores mais ligados às questões ecológicas, visão estratégica que a levou a reforçar as ações voltadas ao meio ambiente. “Como fabricamos peças em nylon, buscamos mostrar que os produtos duram muito tempo, logo não precisam ser comprados a todo momento, e têm valor agregado”, conta Nathália Mansur, Analista de Marca da Kipling, em entrevista ao Mundo do Marketing.

Para não ser uma marca exclusiva a uma única classe social, a fabricante de bolsas e mochilas está mais acessível, disponibilizando a possibilidade de parcelar o pagamento e vendendo em multimarcas. Além disso, desconstruiu a ideia de que jovens usam apenas mochilas e ampliou o portfólio. “Temos produtos que permitem que a pessoa vá dos 14 aos 30 anos com eles. Não temos como criar um estereótipo do nosso cliente. Até o símbolo da empresa, o macaquinho, muda de acordo com o item. Em algumas bolsas, ele ganha contornos mais delicados, como os de um mico leão, além de ser de metal”, afirma Nathália.

A conduta cada vez mais distante do estereótipo torna esse jovem mais informado sobre direitos e deveres, o que faz dele um militante da causa a que adere. Como os indivíduos absorvem referências distintas para a formação da sua personalidade, eles se permitem uma maior liberdade, incluindo a sexual. O casamento já não é uma instituição forte e a realização profissional, por exemplo, está acima dele. O empoderamento feminino também está cada vez mais em voga. Esse público busca empresas que estejam de acordo com essa linha de pensamento.

Ciente do momento econômico em que a cidade vive, com preços de imóveis e restaurantes cada vez mais caros, a opção encontrada por eles foi criar eventos como o do isorporzinho. Nesses encontros, as bebidas são compradas em supermercados e consumidas em locais públicos. “A alta nos preços trouxe um novo público para o varejo. Vejo cada vez mais pessoas dividindo imóveis, porque querem continuar no local em que já moravam. O hábito de fazer a “social” em casa os tira da zona de conforto, mas mostra que eles se adaptam facilmente”, afirma André Mota.

Relacionamentos
A forma como o jovem enxerga os relacionamentos também pode ajudar as marcas a redefinirem suas ações de Marketing. A pesquisa mostrou que houve uma desmistificação de ídolos, comportamento que faz com que ele busque um modelo mais próximo de ícones que não sejam celebridades e artistas inalcançáveis. Nomes locais acabam ganhando força e conversam diretamente com o consumidor.

A DressTo observou essa tendência e passou a adotar o uso de pessoas influentes de cada meio para serem divulgadores da marca. São blogueiros ou indivíduos outros comuns, que se relacionam bem com a comunidade de seu entorno e possuem presença nas redes sociais. “São pessoas que gostam de aproveitar a vida, não passam o tempo todo em festas ou bebendo, são queridas pelos amigos e procuradas quando alguém precisa de uma indicação. É preciso olhar para os círculos dos jovens, em quem eles se espelham. Colocar alguém distante da realidade dele é afastar a própria marca do cliente”, conta Natalia Fidalgo.

Esse pensamento vale, principalmente, para pessoas que moram em comunidades e buscam alguém que represente-os em outras esferas. A Coca-Cola encontrou em grupos locais a força para a marca lidar com o público jovem. A fabricante de bebidas contratou a equipe do Dream Team do Passinho para coreografar a música tema da marca para a Copa do Mundo de 2014. A dança, que mistura funk, break e frevo, originária das favelas cariocas, foi incorporada nas demais ações da companhia. O funk por si só ainda permanece em voga em vídeos publicitários, que trazem também a família como objeto central das campanhas.

Por Priscilla Oliveira, do Mundo do Marketing | 30/10/2014

http://www.mundodomarketing.com.br/reportagens/pesquisa/32074/5-comportamentos-do-jovem-consumidor-carioca.html

“Hiperconsumo está condenado à morte”, diz o filósofo francês Gilles Lipovetsky

23º Congresso de Marketing da ADVB/RS, realizado ontem (dia 24 de setembro) no Teatro Bourbon Country, em Porto Alegre, foi um verdadeiro networking para cerca de 1,2 mil participantes, que aprenderam com pensadores e especialistas de grandes empresas os novos movimentos que ditarão as relações de consumo, práticas que vão mexer com o comportamento das pessoas e o mundo dos negócios

Estamos diante de uma nova sociedade, em que o consumo de massa deixou de existir dando espaço para o hiperconsumo. O neoconsumidor do século 21 fez uma ruptura absoluta com o modelo de compras dos anos 40 e 50, onde reinava o sentimento do semicoletivo: uma televisão, um telefone, um carro e outros equipamentos eram suficientes para uma família. Esta ideia do uno ficou no passado, predomina, agora, o pensamento de pluralidade, ou seja, muitas coisas para cada indivíduo, um fenômeno impulsionado pela tecnologia, mas também pela descoberta do colecionar experiências (valor do prazer, satisfação e felicidade). Porém esta explosão do consumo generalizado deve novamente ter um revés. “Mesmo que não desapareça imediatamente, o modelo do hiperconsumo e do hiperindividualismo está condenado à morte. Vamos assistir ao nascimento de um consumidor frugal, um consumidor responsável e colaborativo, mais atento ao ecológico e que sabe dividir, compartilhar”, disse o filósofo francês Gilles Lipovetsky no 23º Congresso de Marketing, promovido pela ADVB/RS no dia 24, no Teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre.

Com o tema Novas Conexões para Novos Negócios, o evento das 8h às 18h30 reuniu importantes nomes do cenário do marketing: o diretor de Shopper Marketing Brasil da Coca-Cola, Marcelo Barreto, o CMO do Itaú Unibanco, Fernando Chacon, o CEO da FLAG, Roberto Martini, e o co-fundador da Global Shapers Community Porto Alegre, Tomás de Lara. Ao destacar que o congresso é uma iniciativa para capacitar o mercado gaúcho, tornando-o mais forte e competitivo, o que contribui para o desenvolvimento do Estado, o presidente da ADVB/RS, Carlos Bierdermann, disse que os conceitos difundidos e a troca de experiências com os especialistas convidados resultam em um aprendizado único. “Todos os segmentos possuem relação com o marketing e precisam dele para compreender se destacar no mercado. O desafio de cada participante é levar todo esse conhecimento para as organizações e transformar tudo isso em desenvolvimento, excelência e novos negócios”, frisou para os mais de 1,2 mil participantes, que assistiram a sequência de palestras.

Rebuscando a sociedade de consumo desde o pós-guerra a uma projeção do futuro, Gilles, que é autor de livros como Os tempos Hipermodernos, A Felicidade Paradoxal: Ensaio sobre a , A Era do Vazio, disse que o hiperconsumo apresenta diversas características, mas principalmente a individualização do comportamento, originada na emancipação do indivíduo. “O neoconsumidor é um nômade, é volátil, é imprevisível e infiel. Ele vive em uma bulimia crescente de busca de gratuidade, ao mesmo tempo sonha com produtos caros, de luxo. Há uma bipolarização das compras, em que prevalece um modelo cultural do consumidor que aspira coisas para ele e que não quer mais se privar de produtos que tragam satisfação. Isso não significa um direcionamento à zona do low cost (baixo custo)”, explicou o francês no painel O Papel do Marketing nas Novas Relações de Consumo.

PROPÓSITOS
– O propósito das organizações de conseguirem ofertar satisfação e felicidade ao consumidor também foi replicado pelos demais palestrantes. Com o tema O Papel do Branding na Conexão com o Consumidor, o executivo Fernando Chacon mostrou como o Itaú Unibanco foi além do seu core business e vem alcançando sua razão de existir: o propósito de transformar para melhor o mundo das pessoas, razão pela qual decidiu abrir um guarda-chuva de causas, desde educação à mobilidade urbana. Já Tomás de Lara, da Global Shapers Community Porto Alegre, disse que o mundo está entrando em uma era mais subjetiva, muito mais de criação do que produção. “Tudo está conectado, há um despertar da consciência e a biomética será parte fundamental dos novos conceitos, sendo levada para dentro das empresas”, comentou no painel A Evolução da Conexão com o Consumidor. Segundo ele, uma nova economia, chamada de circular, está se desenhando, ganhando contornos mais humanos, corroborativos, social e sustentável. A ordem, sentenciou, será o compartilhamento.

Nesta linha de mudanças de comportamento, o diretor de Shopper Marketing Brasil da Coca-Cola, Marcelo Barreto, ratificou os novos hábitos adquiridos pelo consumidor. Ao falar sobre O novo perfil do Shopper e impactos nas relações de consumo, ressaltou que são três as tendências de consumo que vão mudar os canais de venda: conveniências, racionalização e experiência. “Os shoppers compram para as próximas quatro horas ou até a manhã do dia seguinte. Com isso, as cestas pequenas estão crescendo em detrimento das grandes e o ticket de compra é menor, porém diário. Também há um deslocamento de público para o ‘atacarejo’, que só em 2013 registrou a abertura de 2 milhões de novas lojas”, relatou, ao dar três dicas para capturar essas novas oportunidades de vendas: diversificar a oferta, facilitar as compras, tornando-as mais intuitiva, e otimizar o sortimento. Já Roberto Martini, da FLAG, mostrou uma perspectiva futura mais dura. “A robotização substituirá o pensamento. Se antes um processo dependia de 40 pessoas, hoje são necessárias duas”, frisou, argumentando que a nova economia, a comunicação em rede, os novos negócios virão das tecnologias daqui para frente.

DESAFIO – Para o curador do 23º Congresso de Marketing, Ricardo Vontobel, que liderou o painel Transformando Tendências em Realidade nos Negócios – reuniu palestrantes em um debate – a sociedade vive um momento de mudanças intensas, rápidas e profundas. “Hoje, a produção somente na forma física não garante vantagem competitiva. Cada vez mais, os aspectos intangíveis de produtos e serviços passarão a fazer parte dos aspectos tangíveis, gerando um ambiente diferenciado de relacionamento com o consumidor”, afirmou. Acrescentou ainda que, com a globalização, se instalou um processo de comoditização, com preços semelhantes. “Precisamos encontrar diferentes maneiras de encantar e mobilizar o consumidor. O desafio é incorporar habilidades de resoluções criativas.” O 23º Congresso de Marketing teve como patrocinadores a Unisinos, Seprorgs, RBS TV e Leão Fuze. Apoiaram o evento Fecomércio-RS, Gerdau, Zero Hora, Morya e Teatro do Bourbon Country

http://www.portaldapropaganda.com.br/portal/propaganda/43647-hiperconsumo-esta-condenado-a-morte-diz-o-filosofo-frances-gilles-lipovetsky

“Estamos cansados de tantas novidades”, afirma o filósofo Gilles Lipovetsky

O  filósofo Gilles Lipovetsky volta a Porto Alegre para falar da sociedade de hiperconsumo em uma palestra no dia 24 de setembro, no 23º Congresso de Marketing da ADVB. Autor de livros como Os Tempos Hipermodernos e O Império do Efêmero: a Moda e seu Destino nas Sociedades Modernas, o francês conversou com ZH por telefone sobre a leveza – assunto do livro que acaba de concluir –, e temas de obras anteriores, como a aceleração do ritmo de vida, o risco da hiperindividualização e a volatilidade eleitoral. Confira, a seguir, trechos da entrevista:

Sobre o que o senhor falará em Porto Alegre?

Vou tratar da sociedade do hiperconsumo. Há, hoje, uma individualização crescente em relação ao consumo, ligada às novas tecnologias – mídias, televisão, telefones, internet – que permite aos indivíduos consumos à la carte. Antes, na sociedade de consumo em massa, tudo era sincronizado. Agora, não somos obrigados a ver os mesmos programas no mesmo momento. Cada um gere seu tempo e seu espaço em função de seu desejo. Igualmente, os grupos sociais exercem menos limites de comportamento, o papel das marcas se destaca nas compras e cresce o fascínio dos jovens pelas marcas. Além disso, o consumo passou a ser mais emocional. Antes, as pessoas compravam para serem valorizadas em seu ambiente, era um consumo de status. Isso existe ainda, e provavelmente sempre existirá, mas, ao mesmo tempo, temos um consumo cada vez mais voltado ao prazer. Quem escuta música pelo iPod, por exemplo, faz um consumo hedonístico, para sentir as coisas. É a dimensão das experiências que ganha importância.


Estamos no caminho de viver em uma bolha, isto é, há um risco de as pessoas terem menos variedade no consumo de cultura e informação?

Sim. É um risco dessa hiperindividualização. As pessoas podem escutar sempre as mesmas músicas, procurar as mesmas informações. Pode ser um encerramento dos indivíduos em seu próprio mundo. Se, de um lado, o hiperconsumismo abre (as possibilidades), também fecha algumas aberturas. As duas dimensões coexistem.
Assim como há o mercado de luxo, há pessoas que buscam experiências diferentes, como o Couchsurfing (viajar hospedando-se na casa de outros), grupos para doar ou compartilhar bens. Como o senhor enxerga este outro fenômeno?

Com as opções múltiplas e também a crise econômica, há novas formas de consumo que aparecem – como compartilhamento, aluguel de bens, comércio de itens de segunda mão. Tudo isso leva alguns a elaborar a hipótese de que o fascínio do consumo estaria recuando. Não penso assim. Acho que, muitas vezes, esses comportamentos são uma expressão do le, porque as pessoas fazem economias em uma área para poder continuar consumindo. Querem, por exemplo, dividir o carro ao viajar para viabilizar essa viagem. Utilizando novas maneiras de consumir, nós continuamos sendo consumidores. A recusa do consumo ocorre, sim, mas em grupos bem menores, militantes, ideólogicos, que creio ser algo relativamente pequeno.
O senhor concluiu há pouco um novo livro? Qual é a sua temática?

Sim. Deve ser lançado em janeiro na França. É sobre a leveza, que se tornou um fenômeno central na sociedade contemporânea. O tema compreende corpo, produtos lights, novas tecnologias, como a nanotecnologia, que busca reduzir e tornar tudo mais leve, o smartphone, o design, a decoração. É um setor econômico extremamente desenvolvido, e isso está apenas começando.
A sensação de que o tempo passa mais rápido e nos atropela não é nova. O romantismo já exprimia esse desejo de escapar deste ritmo intenso. Hoje, há pessoas que buscam meios para desacelerar, como ioga e viagens. A leveza, tema de seu próximo livro, é uma reação a essa tendência de acelerar?

Exatamente. Há, cada vez mais, demanda por novidade. Fazemos mil coisas ao mesmo tempo, mas há também gente que sofre com isso porque tudo vai muito rápido. Temos o sentimento de estarmos cansados de tantas novidades e observamos o cultivo de práticas em busca de uma paz interior, de uma leveza da vida, de ioga, de formas de religiosidade, de massagem, de spa, de relaxamento. Vale observar que esses comportamentos são opostos ao consumismo, mas não completamente. A meditação é muito praticada em Nova York e em Londres por pessoas que têm ritmos de vida terríveis, e a meditação é uma maneira de repor as forças para poder continuar nesse sistema. Não é um modelo alternativo. Está a serviço da performance.
A aceleração vai continuar?

Acho que sim. Vemos isso com as novas tecnologias e a informática. Agora que temos o 4G, quem tem 3G reclama que não pode baixar filmes. Vivemos cada vez mais rápido. Há cada vez mais ofertas e tecnologias que permitem ir rapidamente a qualquer lugar. Não sei como isso pode diminuir. A aceleração ganha cada vez mais setores de nossa existência. Isso gera problemas, pois nem tudo pode ir mais rápido. Na educação, por exemplo, não podemos ir mais rápido. Aquisição de conhecimento demanda paciência. No futuro, acho que, além da aceleração, teremos todo um conjunto de técnicas que nos permitam aceitá-la.
Em A Era do Vazio (1983), o senhor escreveu que Narciso era o símbolo da revolução individualista. Àquela época, poderia imaginar que haveria hoje quem publica fotos de si mesmo?

O selfie é um exemplo desse individualismo. É um prolongamento desse narcisismo. Contudo, é um individualismo paradoxal, pois ele está em uma busca incessante da aprovação dos outros. Faço uma foto, coloco no Facebook, mas aguardo a reação dos outros. É um Narciso incompleto. Posso me amar, mas me amo mais ainda se os outros me amam, se dizem que sou bonito, que a foto é interessante. As pessoas tiram selfies para ter uma recompensa simbólica, da parte dos outros. Com o Facebook, cada um é um publicitário de si mesmo. Cada um faz seu próprio marketing. É um marketing narcisístico.

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/09/estamos-cansados-de-tantas-novidades-afirma-o-filosofo-gilles-lipovetsky-4603364.html

O St Marche, supermercado de ricos, é um sucesso improvável

Loja do Eataly em Milão, na Itália

Loja do Eataly em Milão, na Itália: os sócios do St Marche adiaram a abertura de uma filial dessa rede em São Paulo

 São Paulo – O empresário paulistano Victor Leal Jr. e o carioca Bernardo Ouro Preto são varejistas improváveis fazendo um sucesso improvável. Por décadas, vender alimentos e bebidas para os ricos brasileiros foi coisa de gente que pensava pequeno.

Os dois mais tradicionais empórios de luxo do país, a paulistana Casa Santa Luzia e a carioca Lidador, nasceram nos anos 20 — e sempre mantiveram os pés fincados no chão. O risco de crescer sempre foi grande demais: como nossa moeda nunca foi das mais estáveis, o preço das coisas podia variar a ponto de inviabilizar um negócio grande demais.

Diante disso, pode-se dizer que Leal Jr. e Ouro Preto, dois executivos sem nenhuma experiência no varejo, realizaram um feito inédito — abraçaram os ricos, mas sem pensar pequeno. Acabaram criando a maior rede de supermercados “premium” do Brasil em número de lojas, o St Marche.

Como costuma acontecer em histórias desse tipo, a coisa toda aconteceu meio por acaso. Há pouco mais de uma década, eles foram apresentados por um amigo em comum e souberam que havia um empório no bairro do Morumbi que estava claudicando. Interessada no varejo gastronômico, a dupla investiu dinheiro do próprio bolso e pediu ajuda a amigos e parentes.

Juntou cerca de 700 000 reais para arrematar o empório e transformá-lo em supermercado, reinaugurado em 2002. A ideia era vender de tudo, de vinhos franceses e sorvetes artesanais a detergentes e frutas frescas, dando prioridade às marcas mais consumidas pelos endinheirados.

No primeiro ano, a loja deu lucro. Hoje com 16 lojas, o St Marche fatura 370 milhões de reais e está em meio ao mais ambicioso projeto de expansão de sua história — chegar a 1 bilhão de reais de faturamento em 2018, com 40 lojas. Os dois são também donos desde 2007 do Empório Santa Maria, outro supermercado chique de São Paulo.

Um crescimento tão acelerado se deve ao encontro do modelo certo com o momento certo. Nenhuma rede de varejo capturou o, digamos, zeitgeist gastronômico brasileiro — sobretudo paulistano — da última década tão bem quanto o St Marche.

Foi a década da sofisticação, alguns dirão exagerada, de tudo: comprar cervejas, cafés, azeites, carnes e até o sal de cozinha ficou um pouco mais complicado. O St Marche, com suas bandejas de tomate de 14 reais, seus cafés em pó de 43 reais e seus azeites de 150 reais, virou uma espécie de símbolo dessa tendência.

O marketing abraça a ideia despudoradamente. O St Marche tem até um “manifesto” em que se define como o mercado “de gente que quer curadoria e menos encheção de linguiça”. Deu preguiça? Não consegue imaginar alguém que vá ao supermercado querendo curadoria? Que está dando certo, está…

Casos como o do St Marche são raros no mundo todo. Na maioria dos países, há pequenos empórios que vendem produtos sofisticados — e as compras do dia a dia precisam ser feitas em supermercados.

Uma exceção notória é a rede Whole Foods, com sua pegada orgânico chique, que cresceu alucinadamente nos Estados Unidos — e, de tão careira, passou a ser apelidada de “whole paycheck”, ou “contracheque inteiro”. Outro que rompeu a barreira é o italiano Eataly, que tem 27 lojas gigantescas, com restaurantes e espaços para eventos e aulas de culinária, em cinco países.

Há um motivo para os donos de empórios terem medo de crescer demais: é bem mais difícil organizar um esquema de fornecimento de produtos sofisticados do que de itens corriqueiros, como arroz, feijão, sabão em pó e atum em lata.

Alguns são fabricados por uma só empresa em condições artesanais, outros chegam por meio de importadores e podem sofrer com variações cambiais e atrasos nos portos (estamos no Brasil). A estratégia do St Marche para lidar com isso é ter produtos com garantia de fornecimento exclusivo e contratos longos nos segmentos mais críticos.

Além disso, há produtos que podem ser incluídos e retirados das gôndolas sempre que necessário. Todo mês, a rede muda cerca de 300 dos 10 000 itens vendidos nas lojas. Os donos do St Marche não deram entrevista, mas responderam, por e-mail, que querem crescer no esquema atual, mantendo o controle da operação.

“Queremos desmentir o mito de que quanto maior e mais feio o mercado, mais barato ele é”, disseram eles. “Temos uma equipe dedicada a pesquisar nossos concorrentes diretos para garantir que nossos produtos, básicos e especiais, estão sempre a preços competitivos.”

Segundo estimativas de executivos do setor, a margem de lucro do St Marche é de aproximadamente 5%. Concorrentes como Pão de Açúcar, que vendem de tudo, têm margens de 3%. 

Crescer do zero aos 370 milhões de reais em 12 anos foi, de fato, um feito e tanto. Mas, com 16 lojas nos pontos mais nobres de São Paulo, a rede ainda tem um tamanho em que é possível driblar as dificuldades do mercado “premium”. Passar do estágio atual ao bilhão de reais será muito mais complicado.

Primeiro, o investimento terá de ser maior. A rede não tem um centro de distribuição, o que significa que os fornecedores precisam entregar os produtos de loja em loja — hoje, cobram em média 5% do valor total do pedido para fazer isso, mas o percentual pode crescer dependendo da quantidade de filiais.

O St Marche diz que estuda construir um centro de distribuição em 2015. Outro problema é o aumento do aluguel dos terrenos em bairros nobres, onde ficam as filiais do supermercado. Em média, os valores subiram 50% desde 2009, e não há sinais de que vão cair tão cedo.

Em razão dessas dificuldades, os empresários já postergaram os planos de crescimento. Em 2008, eles anunciaram que faturariam 1 bilhão de reais até o fim deste ano. Mas a meta foi adiada para 2018. O tropeço mais visível veio com o movimento mais ambicioso dos donos do St Marche — a tentativa de trazer para o Brasil o Eataly.

O St Marche já alugou um espaço de 4 000 metros quadrados no bairro do Itaim, em São Paulo, e pretendia lançar a unidade em novembro deste ano.

Mas mudou a data para 2015 — os donos dizem que a inauguração será no primeiro bimestre e que o atraso se deve à necessidade de deta­lhar o projeto e treinar a equipe; já executivos do setor afirmam que ficará para o fim de 2015, devido a problemas na importação dos produtos.

Mas, daqui em diante, a vida vai ficar mais dura porque nenhum pioneiro consegue ficar sozinho por tanto tempo. A tal onda gourmet, que explica o sucesso do St Marche, está abrindo espaço para uma miríade de lojas de bairro — de carnes especiais, queijos mineiros, chás, pães e por aí vai. São rivais diretos.

Finalmente, as grandes redes de supermercados decidiram apostar pesado nas lojas de bairro. O Pão de Açúcar, por exemplo, começou a investir no modelo “Minuto Pão”, de lojas pequenas e sofisticadas em bairros de alto poder aquisitivo. A concorrência, portanto, virá de todos os lados. A turma que quer curadoria vai precisar de ainda mais ajuda para escolher.

Varejo | 22/08/2014 05:55

http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1071/noticias/como-vender-para-rico